Uma carta psicografada pelo médium Chico Xavier foi determinante para absolver um jovem acusado de homicídio em Goiânia, conforme revelou o juiz aposentado Orimar de Bastos, que proferiu a sentença em 1979. O réu, José Divino Nunes, então com 18 anos, foi acusado de matar o amigo Maurício Garcez Henrique, de 15 anos, com um tiro em 8 de maio de 1976.
O crime e a investigação
Maurício estava na casa de José Divino quando foi baleado. Imediatamente, as suspeitas recaíram sobre o amigo, que foi acusado de homicídio doloso. O pai da vítima, José Henrique Garcez, foi chamado ao Hospital Santa Rosa e encontrou o filho morto.
Anos depois, o juiz Orimar de Bastos assumiu o caso durante um plantão de férias na 2ª Vara Criminal de Goiânia. "Quando chegou esse processo, eu parei e fiquei olhando esquisito, porque tinha uma carta psicografada como prova apresentada pela defesa", contou ao g1.
A carta psicografada
Os pais de Maurício, desconsolados, procuraram Chico Xavier em Uberaba. Inicialmente, receberam apenas pequenos recados, mas um ano após a morte, veio a carta em que o adolescente inocentava o amigo. "A primeira mensagem dele veio inocentando o menino: 'O menino não foi culpado, o culpado era ele [Maurício] mesmo'", lembrou Dejanira Garcez, mãe da vítima.
A famosa carta foi psicografada em maio de 1978, durante reunião pública do Grupo Espírita da Prece. Nela, Maurício dizia: "O José Divino e nem ninguém teve culpa em meu caso; brincávamos a respeito da possibilidade de se ferir alguém, pela imagem no espelho, sem que o momento fosse para qualquer movimento mau. O tiro me alcançou, sem que a culpa fosse do amigo, ou minha mesmo".
A decisão judicial
O juiz Orimar aceitou a carta como prova e absolveu José Divino. "Temos que dar credibilidade a essa causa psicografada em que o morto, ou pseudo-morto, havia alegado que não foi intenção dele [José Divino] atirar e matar", escreveu na sentença. Laudos periciais comprovaram que o tiro foi acidental: Maurício havia retirado as balas do revólver, mas uma sobrou, e ao brincar em frente ao espelho, José Divino disparou sem querer.
O Ministério Público recorreu, mas o Tribunal do Júri manteve a absolvição por unanimidade. Em nova carta psicografada em 1980, Maurício disse: "Estou satisfeito depois de quatro anos de luta e oração para libertar um amigo".
Repercussão e legado
O caso ganhou destaque nacional e internacional, com entrevistas em programas de TV e reportagens nos Estados Unidos e Inglaterra. Orimar passou a ser chamado de "juiz do além". Apesar das críticas, ele afirma não se arrepender: "Eu tenho esse tempo todo aposentado, com a consciência tranquila. Eu acho que cumpri a minha obrigação".
Após o julgamento, Chico Xavier convidou o juiz para visitá-lo em Uberaba e lhe disse: "Você vai passar a vida toda com todo mundo te indagando sobre esse assunto. Você não negue de contar e de falar como foi o caso, porque você vai ser testemunha por muitos anos".



