A Justiça de São Paulo arquivou o processo contra Luciano Gonçalves dos Santos, marido de Thawanna Salmázio, morta pela policial militar Yasmin Cursino Ferreira em 3 de abril, na Zona Leste da capital. Luciano respondia pelo crime de resistência.
Thawanna caminhava pela rua com o marido quando o braço dele tocou o retrovisor de uma viatura em patrulhamento. O policial que conduzia o veículo deu ré e questionou o casal sobre andar na rua, dando início a uma discussão que terminou com o assassinato da mulher.
Decisão da promotoria
Na época, a polícia registrou um termo circunstanciado por resistência contra Luciano. Porém, segundo o Ministério Público, não há provas de que Luciano tenha agido com violência contra os policiais. “Não há nos autos comprovação pericial de lesões corporais sofridas por qualquer dos policiais, tampouco outro elemento técnico que evidencie o emprego de violência por parte do investigado”, afirmou a promotora Ana Luisa Toledo Barros.
A promotora também afirma que o comportamento de Luciano — ao tentar se desvencilhar dos policiais após sua esposa ser baleada — é "compatível com a situação de tensão decorrente da abordagem violenta dos policiais". Ela destacou ainda que o crime de resistência não se configura por “mera exaltação verbal ou reação emocional do abordado”. Na decisão, publicada em 26 de abril, a promotora ressalta que Luciano é testemunha do homicídio da própria esposa.
Detalhes da ocorrência
Thawanna foi baleada durante a abordagem, na madrugada de 3 de abril, em Cidade Tiradentes. Ela caminhava com o marido quando o braço dele tocou o retrovisor de uma viatura. O policial deu ré e iniciou uma discussão com o casal. A policial Yasmin, que estava no banco do passageiro, desceu da viatura. Nas imagens registradas pela câmera corporal do motorista, é possível ouvir Thawanna dizendo à militar para não apontar o dedo para ela. Em seguida, foi efetuado o disparo.
"Você atirou? Você atirou nela? Por quê, ca***?", questionou o soldado Weden Silva Soares. Yasmin respondeu que atirou porque a moradora teria dado um tapa na cara dela. A ação policial foi marcada por abusos e violência desde o primeiro contato, segundo especialistas ouvidos pelo g1, configurando-se como uma “briga” entre agentes e civis, não uma abordagem, além de desrespeitar protocolos da Polícia Militar.
Demora no resgate
Thawanna esperou mais de 30 minutos pelo resgate, apesar de haver bases do Corpo de Bombeiros a poucos minutos do local do disparo. O atestado de óbito emitido pelo Instituto Médico Legal (IML) apontou hemorragia interna aguda como causa da morte. Socorristas ouvidos pela TV Globo afirmam que a demora no resgate contribuiu diretamente para o agravamento do quadro, já que o ferimento não foi estancado nos primeiros minutos após o tiro.
Cronologia do atendimento
- Às 2h59, o tiro é disparado; o soldado Weden chama o Copom.
- Às 3h04, o Copom aciona o Corpo de Bombeiros.
- Às 3h06, uma viatura de resgate é empenhada, mas substituída às 3h12.
- Às 3h17, a segunda ambulância sai da base.
- Às 3h30, a ambulância chega ao local.
- Às 3h37, a ambulância deixa o local.
- Às 3h40, a viatura chega ao hospital, mas Thawanna não resiste.
A Ouvidoria pede que a corregedoria da PM investigue omissão de socorro no caso. A soldado Yasmin estava na etapa final do estágio na corporação e não usava câmera corporal.



