Operação do MP-AM prende 11 policiais militares por morte de jovem em Manaus
O Ministério Público do Amazonas (MP-AM) realizou nesta sexta-feira (13) uma operação de grande porte em Manaus, resultando na prisão de onze policiais militares investigados pela morte de um jovem durante uma intervenção policial ocorrida em outubro de 2025. A ação, batizada de "Simulacrum", mobilizou diversas forças de segurança e representou um passo significativo no esclarecimento do caso que gerou ampla repercussão na capital amazonense.
Detalhes da operação e prisões
Durante a operação, foram cumpridos 38 mandados judiciais autorizados pela 1ª Vara do Tribunal do Júri da Capital, incluindo 11 prisões preventivas, 19 ordens de busca e apreensão e oito medidas cautelares diversas. Entre os militares presos estão um capitão, dois cabos, um terceiro-sargento e sete soldados, todos vinculados às Rondas Ostensivas Cândido Mariano (Rocam). Dez dos investigados já foram localizados e presos, enquanto um permanece foragido por estar fora do estado no momento da operação.
As equipes do MP-AM, com apoio da Polícia Militar através da Diretoria de Justiça e Disciplina da corporação e da própria unidade Rocam, também cumpriram mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos investigados. Alguns dos policiais presos foram alvos simultaneamente dessas buscas, conforme informações do Ministério Público.
O caso que motivou a investigação
A operação "Simulacrum" investiga especificamente a morte de João Paulo Maciel dos Santos, jovem de 19 anos que perdeu a vida durante uma abordagem policial no bairro Vila da Prata, na Zona Oeste de Manaus. O caso ganhou notoriedade após a divulgação de imagens que registraram momentos da intervenção, levantando questionamentos sobre a conduta dos agentes envolvidos.
Segundo o Ministério Público, um total de 19 policiais militares foram denunciados no processo, com acusações que incluem 11 denúncias por homicídio qualificado e 12 por fraude processual. Quatro dos investigados respondem simultaneamente pelos dois tipos de crime, indicando a complexidade e gravidade das alegações.
Reações e manifestações
A morte do jovem João Paulo gerou intensa comoção social em Manaus. Um dia após o ocorrido, familiares e amigos realizaram uma manifestação na Avenida Brasil, no bairro Compensa, também na Zona Oeste da capital. Durante o protesto, os participantes carregaram cartazes, gritaram por justiça e chegaram a bloquear o trânsito na região, enquanto a Polícia Militar enviou reforços para conter os manifestantes.
Jeciara Maciel, mãe da vítima, participou ativamente da manifestação e fez um emocionado apelo por justiça: "Mataram meu filho, hoje o enterrei. Pegaram meu filho, ele já estava rendido. Levaram ele para baixo de uma casa. Executaram meu filho. Ele desceu com vida e voltou sem vida. Eu quero Justiça pela vida do meu filho".
Versões conflitantes e investigações
As versões sobre o ocorrido apresentam divergências significativas. De acordo com informações da Rocam, os policiais foram ao local após uma denúncia anônima sobre venda de entorpecentes por criminosos armados. Os agentes teriam solicitado apoio e iniciado uma perseguição, sendo atacados a tiros ao entrarem em uma passagem lateral de uma residência.
Entretanto, testemunhas e moradores da região contestam essa narrativa. Em vídeo gravado durante a abordagem, é possível ver os policiais abordando um homem sem camisa que levava as mãos à cabeça e era revistado sem demonstrar reação. Posteriormente, ao menos um agente aparece levando o homem para a passagem lateral da residência, enquanto um grupo de aproximadamente seis policiais permanece no local. Pouco tempo depois, outros dois agentes entram na mesma passagem e saem carregando um corpo.
Posicionamento das instituições
A Polícia Militar emitiu nota oficial destacando que a corporação é formada, em sua maioria, por profissionais que atuam na proteção da população, reafirmando seu compromisso com a legalidade e o interesse público. A instituição também ressaltou que colaborou com a operação através de seus órgãos internos de disciplina.
A defesa da família de João Paulo Maciel dos Santos manifestou-se após a operação, classificando-a como "um passo importante para o esclarecimento do caso". Os advogados afirmaram que laudos periciais indicaram disparos de arma de fogo que atingiram órgãos vitais da vítima e apontaram inconsistências na versão inicial apresentada pelos policiais, que alegavam confronto.
Os representantes legais da família também relataram que moradores da região expressaram medo após o caso e demonstraram alívio com as prisões e afastamento dos policiais investigados. O processo segue em tramitação na 1ª Vara do Tribunal do Júri da Capital, sob condução das 60ª e 61ª Promotorias de Justiça Especializadas no Controle Externo da Atividade Policial e Segurança Pública.
