A Lei de Moisés determina que os judeus do sexo masculino sejam circuncidados no oitavo dia de vida, em um rito chamado brit milá. Jesus, como todo judeu, foi circuncidado. No entanto, essa prática foi abandonada pelos cristãos, ao contrário de outros rituais compartilhados, como a oração conjunta e celebrações similares. A resposta está na Bíblia.
O conflito entre são Paulo e são Pedro
Segundo o Novo Testamento, a ruptura entre judaísmo e cristianismo sobre a circuncisão ocorreu por volta do ano 50. Os protagonistas foram são Paulo e são Pedro, que tiveram uma intensa discussão. Miguel Pastorino, professor de filosofia da religião, explica que foi o primeiro conflito institucional da igreja.
Paulo de Tarso, antes fariseu defensor da Lei de Moisés, tornou-se propagador da palavra de Cristo. Judeu como os demais apóstolos, era circuncidado. A circuncisão era o pacto de Deus com Abraão: todo homem deveria ser circuncidado. Muçulmanos também mantêm a prática, baseada nos hadiths.
Origens históricas da circuncisão
A remoção do prepúcio é o procedimento cirúrgico mais antigo, originado no Egito há cerca de 15 mil anos, segundo o cirurgião Ahmed al Salem. Muitas culturas a adotaram por higiene, rituais de maioridade ou identidade cultural. Pastorino destaca que a religião legislava sobre higiene, e a lei era divina.
O rabino Daniel Dolinsky aponta a conjunção entre circuncisão e saúde. Sumérios, semitas, maias e astecas também a praticavam. Gregos, porém, viam o prepúcio como símbolo de beleza e rejeitavam a circuncisão. Durante o período helenístico, judeus enfrentaram pressão para ocultar a circuncisão, que chegou a ser ilegal sob Antíoco Epifânio.
A pregação de Paulo e o Concílio de Jerusalém
Paulo pregava que a fé era suficiente para a salvação, não exigindo circuncisão. Ele escreveu: “Não vale de nada ser circuncidado ou não; importa é cumprir os mandamentos de Deus”. Sua posição gerou conflito com outros apóstolos. Em Antioquia, Paulo confrontou Pedro, que se separava dos gentios por medo dos partidários da circuncisão.
No Concílio de Jerusalém, Paulo argumentou sobre os gentios convertidos. Tiago e Pedro cederam, decidindo não impor a circuncisão aos não-judeus, apenas exigindo abster-se de ídolos, sangue, carne sufocada e imoralidade sexual. A carta enviada aos gentios trouxe alívio e celebração.
Cristãos circuncidados hoje
Apesar da abolição, grupos como o cristianismo copta no Egito, ortodoxo na Etiópia e a Igreja Nomiya no Quênia praticam a circuncisão. Em países de cultura cristã, como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia, a circuncisão foi difundida por razões médicas no século XIX, mas hoje há divergências científicas sobre seus benefícios.



