Especialistas analisam como machismo estrutural perpetua violência contra mulheres
O machismo estrutural, profundamente enraizado na sociedade há séculos, permanece como um dos principais fatores por trás da violência de gênero que atinge mulheres em todo o país. A ideia de superioridade masculina, construída culturalmente, faz com que muitos homens ainda enxerguem as mulheres como objetos de posse, como se tivessem direito sobre o corpo, a vida e as decisões delas. Essa mentalidade se torna especialmente evidente quando homens não aceitam o fim de relacionamentos e reagem com agressividade, demonstrando como a violência está conectada a essa estrutura social.
Reflexões sobre a construção social do machismo
Em entrevista para a série especial "Marcas", uma iniciativa da TV Globo para conscientizar sobre a violência contra as mulheres, o professor, psicólogo e psicanalista Luiz Felipe Andrade e o professor e filósofo Sandro Sayão compartilharam análises profundas sobre o machismo estrutural. Eles defendem que a desconstrução dessa cultura de superioridade masculina é uma condição essencial para o fortalecimento da igualdade de gênero em nossa sociedade.
"O feminismo é um movimento que vem, de alguma forma, lutar por igualdade e por uma reparação aos direitos das mulheres que foram silenciadas e abafadas, em parte, por esse patriarcado e por esse machismo. Então, o machismo seria opressor, e o feminismo tem uma proposta original, de libertação, de igualdade e de voz às mulheres", afirmou Luiz Felipe Andrade durante a entrevista.
Papéis de gênero construídos historicamente
Os especialistas avaliam como a construção social dos papéis de gênero configurou o machismo como uma prática que atravessa os séculos. Sandro Sayão explicou que "isso foi construído ao longo do tempo, construído por culturas e pela nossa sociedade. Foi construindo uma identidade hegemônica do homem, o homem como detentor de poder, detentor de regalias, e a mulher no papel de subserviência, lhe servindo".
Essa divisão histórica se reflete ainda hoje na forma como meninos e meninas são socializados: "Os meninos estimulados para certos tipos de habilidade, sendo estimulados para a conquista; e as mulheres, para ficar em casa, silenciadas", completou o filósofo.
Objetificação e violência como consequências
A violência contra as mulheres tem relação direta com a ideia de que os homens ocupam sempre o local de poder. Esse comportamento se reflete em diversas relações sociais, seja dentro de casa ou dentro de uma empresa. No contexto doméstico, a mulher é frequentemente ameaçada quando questiona esse lugar de submissão que lhe foi historicamente designado.
Sayão analisou essa dinâmica: "'Mas ele é homem mesmo'. Por quê? Porque ele manda na mulher, é ele que tem a última palavra, é ele que determina. Ele não se deixa, de maneira alguma, determinar que a mulher diga alguma coisa. Isso é um barco furado, porque isso leva com que muitos homens, inclusive, não pensem nem nas consequências das suas ações."
A armadilha do machismo para os próprios homens
Essa estrutura machista também cria armadilhas para os próprios homens, impedindo que demonstrem seus sentimentos e fragilidades de forma saudável. "Ele não pode ser sensível, o homem não chora, mas ele pode expressar a sua agressividade. E ele vai exercitar essa agressividade com quem no futuro?", questionou o filósofo durante a entrevista.
A agressividade masculina, muitas vezes reprimida e redirecionada de forma inadequada, pode ser expressada dentro do contexto familiar. A recusa do homem em aceitar que a mulher não é uma posse sua funciona como um estopim para inúmeros atos de violência, incluindo os casos mais extremos de feminicídio.
Caminhos para transformação social
A violência contra as mulheres é um tema que atravessa diversos setores da sociedade, representando um problema estrutural que aprisiona vítimas em relacionamentos perigosos e letais. A mudança dessa realidade requer esforços consistentes que nadam contra uma corrente fortalecida por centenas de anos de machismo institucionalizado.
"A comunicação e, de alguma forma, a troca e a sensibilidade de um para com o outro é que vão ser fundamentais. E uma educação para uma construção melhor, desde as crianças, uma vez que não se nasce macho nem fêmea nem machista", sugeriu o psicanalista Luiz Felipe Andrade.
Para o filósofo Sandro Sayão, a forma de se relacionar também merece atenção especial, principalmente na escolha dos parceiros afetivos. "A gente precisa aprender a escolher os nossos amores. E não é porque ele vai nos proteger, porque a gente não é criança, a gente é adulto, eu não preciso de proteção. A gente não precisa de ninguém para pagar as contas, a gente mesmo vai pagar", declarou Sayão.
O especialista completou sua reflexão: "A gente não busca [companhia] por aquilo que falta, a gente busca pela alegria de poder estar junto, de poder compartilhar a vida. E, se não há mais alegria, se não há mais felicidade nesse estar junto, que a gente diga 'adeus', se despeça e continue com dignidade e com respeito."
Essas estruturas sociais que se arrastam ao longo das gerações continuam sendo fontes de sofrimento para mulheres tratadas como "objeto" de posse. Por serem colocadas em um lugar de submissão histórica, muitas vezes não é "permitido" que questionem, se posicionem ou busquem ocupar espaços fora daqueles socialmente designados a elas.
Os especialistas também avaliam que, com as demandas do capitalismo contemporâneo, uma família pode ter mais de um provedor, alterando dinâmicas tradicionais. "Essa mulher não fica mais no lar, porque ela também compõe um ganho financeiro e tem uma especialização de trabalho que vai, junto com o homem, construindo e desconstruindo", pontuou Luiz Felipe Andrade, destacando como as transformações econômicas também impactam as relações de gênero.



