Uma decisão histórica da Suprema Corte da Malásia confirmou o que a família de Raymond Koh suspeitava há quase uma década: o pastor foi vítima de um desaparecimento forçado executado por uma unidade especial da polícia do país. O veredicto, proferido em novembro, representa uma vitória judicial duramente conquistada por sua esposa, Susanna Liew, que transformou sua dor em uma luta incansável por verdade e justiça.
Um sequestro em plena luz do dia
O caso, que se tornou um dos maiores mistérios da Malásia, começou em 13 de fevereiro de 2017. Por volta das 10h da manhã, Raymond Koh, então com 63 anos, saía de casa em um bairro tranquilo de Kuala Lumpur quando foi interceptado por uma operação cinematográfica.
Uma frota de veículos utilitários e motocicletas bloqueou seu carro. Homens mascarados e vestidos de preto quebraram os vidros do veículo, arrancaram o pastor de dentro e o colocaram à força em um dos carros do grupo. Tudo foi registrado por câmeras de vigilância de residências próximas e durou meros segundos.
A ação rápida e coordenada levantou suspeitas desde o início. A família nunca recebeu qualquer pedido de resgate, descartando a hipótese de um sequestro comum. Poucos meses antes, em novembro de 2016, o ativista social Amri Che Mat havia sido raptado de maneira quase idêntica no norte do país.
A longa batalha por respostas e a descoberta da verdade
Enquanto a polícia malasía apresentava teorias não críveis, como envolvimento com tráfico de drogas, Susanna Liew iniciou uma jornada solitária. Ela vendeu joias, usou economias e dependeu de doações para sustentar a família e custear a busca pelo marido.
A reviravolta veio em maio de 2018, quando um sargento da polícia procurou a esposa de Amri Che Mat. Ele confessou que a Divisão Especial, a principal agência de inteligência e segurança interna da Malásia, era responsável pelos dois sequestros. O motivo alegado era que Koh supostamente tentava converter muçulmanos ao cristianismo, e Amri difundia o islamismo xiita, proibido no país.
Outra pista crucial foi um Toyota Vios dourado, visto nas cenas de ambos os crimes e rastreado até um funcionário da Divisão Especial. Investigações independentes da Comissão de Direitos Humanos da Malásia e uma força-tarefa governamental concluíram, em 2019, que a unidade policial era, de fato, a responsável.
Os relatórios apontaram um principal suspeito: Awaludin bin Jadid, um alto funcionário aposentado da Divisão Especial que, segundo os documentos, tinha "visões extremas" contra o xiismo e o cristianismo.
A vitória judicial e a busca que não termina
Em 2020, Susanna Liew moveu uma ação civil contra a polícia e o governo. Em novembro, a Suprema Corte decidiu a seu favor, determinando que "um ou mais" oficiais foram responsáveis pelo sequestro e por uma "conspiração que resultou em danos".
O juiz estabeleceu que o governo tem responsabilidade indireta e ordenou o pagamento de uma indenização por danos emocionais, além de 10 mil ringgits (cerca de R$ 11 mil) por cada dia de desaparecimento até que o paradeiro de Koh seja revelado. Esse valor diário já acumula mais de 32 milhões de ringgits (cerca de R$ 35 milhões), podendo se tornar a maior indenização da história do país.
Apesar da vitória, o governo recorreu da decisão. Nenhum dos policiais citados foi preso ou punido; um deles chegou a ser promovido. "O que realmente queremos é que a verdade e a justiça prevaleçam, que os responsáveis sejam responsabilizados e que possamos ter um encerramento adequado", afirma Liew. "Isso significa saber onde está o pastor Raymond Koh."
A família vive um limbo doloroso. "Estamos paralisados pelo luto", desabafa Susanna. A incerteza sobre se Raymond está vivo ou morto impede o processo de cura. Inspirada pela própria terapia, Liew agora estuda para se tornar terapeuta e ajuda outras famílias. Sua luta a transformou de uma dona de casa discreta em uma ativista reconhecida internacionalmente, premiada em 2020 pelos Estados Unidos com a medalha Mulheres de Coragem.
Ela afirma ter perdoado os responsáveis, mas deixa claro que o perdão não significa desistir da justiça. Seu apelo final é por reformas: a criação de um órgão para fiscalizar a conduta policial e uma comissão para identificar todos os envolvidos no caso que abalou a Malásia.