Feminicídio de jovem em Divinópolis revela crescimento alarmante da violência contra mulheres
O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, tradicionalmente marca reflexões sobre conquistas e desafios femininos. Porém, em 2026, os números impõem uma análise mais urgente: o risco extremo que paira sobre a vida das mulheres brasileiras. Mais do que uma data comemorativa, o momento exige atenção a uma realidade que atravessa famílias e deixa marcas permanentes em toda a sociedade.
Estatísticas cruéis e um caso emblemático
O motivo é estatístico e devastador: em 2025, o Brasil atingiu o topo da série histórica de violência contra mulheres, registrando quatro feminicídios por dia e dez tentativas de assassinato a cada 24 horas. Este cenário sombrio também se reflete em Divinópolis, onde os feminicídios consumados cresceram impressionantes 300% entre 2019 e 2025, conforme dados da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp).
A morte de Dhandara Kellen Ferreira, aos 18 anos, representa apenas um dos casos dessa trágica estatística. A jovem foi encontrada sem vida em um matagal do Bairro Paraíso em setembro de 2025, após uma emboscada que interrompeu não apenas uma vida repleta de sonhos, mas que deixou um vazio permanente em sua família.
Detalhes do crime e investigação
O principal suspeito é um adolescente de 17 anos com quem Dhandara mantinha um relacionamento conturbado há aproximadamente três anos. Outro adolescente, também de 17 anos, é investigado por participação no crime. A Sejusp informou que ambos os suspeitos cumpriam medida de internação no sistema socioeducativo de Minas Gerais em 2025, mas não divulgou mais detalhes para preservar a integridade dos adolescentes, conforme determina o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
A investigação e o laudo do obituário apontaram que a jovem foi estrangulada. "Foi uma armadilha. Ele chamou ela. Tudo indica que tentou simular um suicídio. Minha filha estava nua e com a corda do macaquinho [peça de roupa] que usava no pescoço", relatou Jannes Kellen, mãe de Dhandara.
Sinais de alerta e dependência emocional
A dor da família é atravessada por lembranças de sinais claros de que o relacionamento não era saudável. O adolescente suspeito já havia agredido Dhandara na porta da escola, desferindo um chute em seu rosto. "A gente falava para ela parar de ficar com ele. Não era um namoro assumido, os dois ficavam com outras pessoas, mas ela sempre estava presa a esse menino", contou Jannes.
Nos cadernos da filha, a mãe encontrou o nome do suspeito escrito ao lado de declarações de amor. Para Jannes, a filha – que perdeu o pai assassinado quando tinha 9 anos – pode ter desenvolvido uma dependência emocional. "Na minha visão, ela era refém de um sentimento que achava que era amor", desabafou.
Impacto devastador na família
Dentro de casa, o impacto foi imediato e permanente. "É um buraco, um silêncio. Não ter ela mais. A casa ficou vazia", descreveu Jannes. Dhandara ajudava a mãe a cuidar do irmão mais novo, João Henrique, de 12 anos, que desde a morte da irmã passou a apresentar mudanças comportamentais significativas.
"Na escola, falta atenção. Às vezes está mais ríspido, mais calado. Precisou buscar atendimento psicológico", revelou a mãe. A avó com quem Dhandara morava desde pequena também se fechou emocionalmente, enquanto o tio mais novo igualmente se isolou.
Transformando a dor em alerta
Jannes, que trabalha com vigilância armada patrimonial, retornou ao serviço 20 dias após o crime. "Voltei aos poucos. Ficar em casa seria pior. Trabalhar é mais um motivo para manter minha cabeça no lugar", explicou. A adolescente era focada nos estudos e tinha o sonho de prestar concurso público e ser mãe. No dia 17 de março completaria 19 anos.
Além da saudade, o medo passou a fazer parte da rotina familiar. A mãe instalou câmeras na residência e ampliou um receio antigo. "Já tinha medo de colocar um homem dentro de casa com uma filha adolescente. Agora, mais ainda. Se eu for namorar um dia, será cada um na sua casa", afirmou.
Para ela, o feminicídio é reflexo de uma cultura de machismo e ego que precisa ser enfrentada com urgência. "Não está tendo amor ao próximo mais. O mal existe e está gritando na sociedade. A mulher não pode calar. No primeiro grito tem que cortar na raiz", alertou.
Cenário alarmante em Minas Gerais
Dados divulgados pela Sejusp revelam um panorama preocupante em todo o estado. Em 2024, foram registrados 248 feminicídios consumados e 169 tentados. Já em 2025, os números apontam 177 casos consumados e 207 tentados, demonstrando aumento nas tentativas e persistência da violência letal contra mulheres.
Em Divinópolis, os números apresentam oscilação anual, com aumento significativo em 2025 quando a cidade passou de 0 para 5 feminicídios tentados. A cidade é a mais perigosa para mulheres da 7ª Região Integrada de Segurança Pública (Risp), representando sozinha 13,4% dos feminicídios tentados e 16,88% dos consumados na região entre 2019 e 2025.
Análise psicológica e social
A psicóloga Marina Saraiva destacou que "quando um feminicídio acontece, muitas vezes a sociedade reage como se fosse um caso isolado ou um 'surto'. Mas, do ponto de vista psicológico e social, não é surpresa nem exceção. Esses crimes são resultado de uma cultura que historicamente coloca as mulheres em posição de vulnerabilidade e naturaliza comportamentos de controle e violência por parte de homens".
Ela acrescentou: "Enquanto tratarmos esses casos apenas como tragédias individuais, sem enfrentar as estruturas que os permitem, o ciclo de violência tende a se repetir, a barbárie tende a crescer".
A mãe de Dhandara transformou seu luto em um apelo urgente às mulheres: "Se priorizem. Não adianta pensar que não vai acontecer. Pode acontecer. E quando acontece, destrói tudo". A morte da jovem permanece como uma ausência que ecoa nos corredores de casa, nas cadeiras vazias à mesa, no caderno que ficou e nos planos brutalmente interrompidos.



