PF Investiga Aplicação de R$ 400 Milhões da Previdência do Amapá no Banco Master
A Polícia Federal (PF) afirma que a destinação de recursos da Amprev, a autarquia responsável pela previdência dos servidores do estado do Amapá, ao banco Master ocorreu de forma acelerada e sem as cautelas técnicas necessárias. Segundo as investigações, as deliberações foram tomadas em menos de 20 dias, resultando em aportes que somaram impressionantes R$ 400 milhões.
Processo Decisório Acelerado e Alertas Ignorados
De acordo com a PF, o então diretor-presidente da Amprev e coordenador do comitê de investimentos, Jocildo Silva Lemos, teve um papel central na condução das reuniões realizadas em julho de 2024 e na execução das decisões aprovadas. A polícia aponta que ele liderou o processo decisório que viabilizou as aplicações, muitas vezes relativizando questionamentos apresentados por outros conselheiros.
Jocildo Silva Lemos, que já atuou como tesoureiro da campanha do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), foi indicado ao cargo na Amprev pelo próprio senador. Em agradecimento público, Jocildo reconheceu a nomeação, reforçando os laços políticos envolvidos.
Práticas Atípicas e Condicionantes Frágeis
Em uma das deliberações mais emblemáticas, que autorizou a compra de R$ 100 milhões em letras financeiras do banco Master, a maioria do comitê de investimentos aprovou a aplicação condicionando-a apenas a uma visita institucional futura à instituição financeira. Não houve exigência prévia de documentação técnica complementar, uma prática considerada atípica e arriscada pela Polícia Federal.
Relatórios da PF indicam que, durante as reuniões, outros conselheiros alertaram para diversos riscos, incluindo:
- A concentração excessiva de recursos da Amprev no banco Master.
- A recusa da Caixa Econômica Federal em adquirir títulos da instituição.
- A existência de investigações em órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União (TCU) e o Ministério Público Federal (MPF).
Mesmo diante dessas advertências, a maioria do comitê aprovou novas aplicações, sem exigir estudos adicionais ou documentação técnica mais aprofundada.
Operação Zona Cinzenta e Mandados de Busca
Em 23 de janeiro, a Polícia Federal solicitou à Justiça Federal autorização para cumprir mandados de busca e apreensão contra gestores apontados como responsáveis pelas aplicações. A operação, batizada de Zona Cinzenta, foi deflagrada na última sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026.
Foram alvos das buscas:
- Jocildo Silva Lemos, ex-diretor-presidente da Amprev.
- José Milton Afonso Gonçalves, conselheiro da Amprev e integrante do comitê de investimentos, responsável por apresentar a proposta inicial de investimento de grande porte no banco Master.
- Jackson Rubens de Oliveira, também membro do comitê e participante das reuniões que decidiram pelos aportes.
O inquérito apura os crimes de gestão fraudulenta e temerária de instituição financeira. Para a PF, os responsáveis pelos aportes priorizaram exclusivamente a rentabilidade prometida, sem aprofundar análises reputacionais ou de risco.
Contexto do Banco Master e Reações
O banco Master teve sua liquidação decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025, um dia após a prisão de seu controlador, Daniel Vorcaro, sob suspeita de tentativa de fuga do país. A instituição já enfrentava dificuldades para honrar compromissos e é investigada por possíveis crimes na gestão de carteiras de crédito.
Em nota divulgada nesta segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026, a Amprev afirmou que se considera prejudicada pelas irregularidades atribuídas ao banco Master e que busca o ressarcimento integral dos valores investidos. Segundo o instituto, a Justiça já determinou o bloqueio de pagamentos à instituição financeira. Os aportes representariam cerca de 4,7% da carteira da previdência estadual.
É importante destacar que a manifestação da Amprev não faz menção às suspeitas levantadas pela PF sobre a conduta dos próprios gestores. A reportagem não conseguiu contato com a assessoria do órgão nem com as defesas dos três investigados.
Procurado, o senador Davi Alcolumbre não respondeu aos questionamentos. Em nota divulgada anteriormente, o parlamentar afirmou defender a apuração completa dos fatos, com punição aos responsáveis, respeitado o devido processo legal.
Este caso evidencia a complexidade e os riscos envolvidos na gestão de recursos públicos, especialmente em instituições previdenciárias, onde a transparência e a prudência devem ser pilares fundamentais para proteger os direitos dos servidores e a estabilidade financeira do estado.



