Escândalo Epstein atinge coração do governo trabalhista britânico
O tsunami de revelações do caso Jeffrey Epstein, o financista americano condenado por crimes sexuais contra menores que foi encontrado morto na prisão em 2019, atingiu em cheio o governo do primeiro-ministro trabalhista do Reino Unido, Keir Starmer. Documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, totalizando cerca de 3 milhões de arquivos, expuseram conexões preocupantes que agora ameaçam derrubar a administração britânica.
Diplomata próximo a Starmer no centro da tempestade
O epicentro do terremoto político é Peter Mandelson, um lorde apelidado de "príncipe das trevas" por sua atuação nas sombras da política britânica. Com mais de quatro décadas de influência no Partido Trabalhista, Mandelson foi embaixador do Reino Unido em Washington até setembro do ano passado, quando foi demitido após surgirem evidências de que manteve proximidade com Epstein mesmo após a condenação do financista em 2008.
As revelações mais recentes, porém, são ainda mais explosivas: mensagens trocadas entre Mandelson e Epstein mostram o diplomata compartilhando informações sigilosas do governo britânico enquanto servia como secretário de Negócios e Comércio no governo de Gordon Brown entre 2007 e 2010. As comunicações incluíam piadas sobre strippers e referências a um "jovem bem dotado".
Crise política sem precedentes
Apesar de Starmer nunca ter conhecido Epstein pessoalmente, visitado sua ilha privada ou trocado e-mails com o criminoso, a indignação pública foi imediata e generalizada. A polícia de Londres abriu investigação formal contra Mandelson, que tentou conter os danos ao se desligar do partido, mas a medida não foi suficiente para acalmar a tempestade política.
"Um líder mais forte talvez pudesse superar o que se desenha como o mais grave escândalo político britânico do século, mas ele coleciona fracassos e perdeu a confiança dos eleitores", analisa Tim Bale, professor de ciência política na Queen Mary University de Londres.
Queda vertiginosa na popularidade
Starmer assumiu o cargo em julho de 2024 com impressionantes 61% de aprovação nas pesquisas, mas viu esse número despencar para apenas 17% após as revelações do caso Epstein. Especialistas preveem que a queda continuará nas próximas sondagens, aumentando a pressão pela renúncia do premiê.
A crise levou à demissão de Morgan McSweeney, chefe de gabinete e braço direito de Starmer, que havia feito lobby pela nomeação de Mandelson para a embaixada americana. O chefe de comunicação do governo também deixou o cargo, em um claro sinal da gravidade da situação.
Reações políticas e pedido de desculpas
A oposição conservadora não poupou críticas ao governo trabalhista. "É um governo completamente à deriva, com o primeiro-ministro sendo levado pelo vento como um saco plástico. Ele deveria sair", afirmou Kemi Badenoch, importante figura do Partido Conservador.
Até dentro do próprio Partido Trabalhista surgiram vozes críticas. Anas Sarwar, líder do braço escocedo do partido, declarou: "A liderança precisa mudar. Houve erros demais".
Diante do Parlamento, Starmer acusou Mandelson de "trair o país" e expressou arrependimento por ter acreditado em suas versões. "Me arrependo de ter acreditado nas mentiras dele. Peço perdão", disse o primeiro-ministro, que agora enfrenta exigências parlamentares por acesso completo aos documentos relacionados à contratação do ex-embaixador.
Contexto econômico agrava crise
A crise política ocorre em um momento delicado para a economia britânica, ainda sentindo os efeitos do Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia em 2020. Starmer já enfrentava dificuldades para implementar medidas econômicas necessárias e, no ano passado, lidou com uma rebelião interna do partido devido a tentativas de reforma do sistema de bem-estar social.
Analistas políticos sugerem que uma possível solução para evitar o arrastamento de todo o partido para a lama seria convencer oitenta parlamentares trabalhistas a convocar uma eleição interna para escolher um novo líder, que automaticamente se tornaria primeiro-ministro devido ao sistema parlamentarista britânico.
Os próximos dias serão decisivos para o futuro do governo Starmer e do Partido Trabalhista, enquanto o escândalo Epstein continua a revelar conexões perturbadoras no mais alto escalão do poder britânico.



