Governo capixaba denuncia suposto esquema paralelo em investigação de crime organizado
O Governo do Espírito Santo realizou uma coletiva de imprensa nesta segunda-feira (2) para revelar acusações graves contra o delegado Romualdo Gianordoli Neto, ex-subsecretário de Inteligência da Secretaria de Estado da Segurança Pública. Segundo as autoridades presentes, o profissional teria criado um "centro de investigação paralelo" para produzir relatórios sem o conhecimento da alta cúpula da secretaria.
Reanálise completa das provas da Operação Baest
Durante o evento, foi anunciado que todas as provas coletadas na Operação Baest – investigação concluída em setembro do ano passado sobre o braço financeiro do crime organizado no estado – serão reexaminadas minuciosamente. A decisão surgiu após o depoimento do delegado Gianordoli à Corregedoria da Polícia Civil em fevereiro deste ano, onde confirmou que o celular de um empresário da Serra investigado na operação continha conversas com o desembargador Macário Júdice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2).
O magistrado encontra-se preso no Rio de Janeiro sob suspeita de obstrução de investigação. Conforme explicou o secretário da Segurança Pública e Defesa Social, Leonardo Damasceno, o relatório final assinado por Gianordoli e outros delegados em setembro não fazia nenhuma menção a esses diálogos ou ao desembargador.
Acusações de conduta irregular
O delegado-geral da Polícia Civil, José Darcy Arruda, foi enfático em suas declarações: "Ele criou um Ciat paralelo. Agora, a Corregedoria quer saber dele. Por que fez isso por fora? O que o levou a fazer isso? Qual era a intenção?". Arruda questionou ainda por que o material permaneceu escondido de maio a setembro sem compartilhamento adequado com o Ministério Público e o Poder Judiciário.
Os representantes do governo destacaram que, em situações envolvendo prerrogativa de foro de instância diferente daquela onde o processo tramita, as informações não deveriam ter permanecido sob custódia exclusiva do delegado. Damasceno acrescentou que as exonerações ocorreram devido à quebra de confiança na relação profissional, afirmando que Gianordoli "saiu do Ciat levando os computadores com o conteúdo pertencente à Polícia Civil".
Defesa do delegado acusado
Procurado pela reportagem, Romualdo Gianordoli negou veementemente todas as acusações. "Essa narrativa é artificial, conveniente e absolutamente dissociada da realidade dos fatos", declarou. O delegado afirmou que seguiu rigorosamente o mesmo padrão histórico adotado pelo Centro de Investigação de Análise Telemática (Ciat), com tramitação física na fase investigativa inicial e posterior digitalização para conversão em processo judicial eletrônico.
Gianordoli argumentou que seria "irresponsabilidade funcional e violação frontal ao dever de sigilo" incluir no relatório final da primeira fase os nomes de investigados da fase seguinte. "Isso não é transparência. É sabotagem da investigação", explicou, acrescentando que os investigadores preparariam um relatório mais completo, mas isso foi inviabilizado pela desestruturação do núcleo investigativo.
Contexto político e desdobramentos
O caso ganhou contornos políticos adicionais nos últimos dias, quando o nome do governador Renato Casagrande foi relacionado ao do desembargador Macário Júdice Neto após a Polícia Federal solicitar abertura de inquérito devido a mensagens de WhatsApp trocadas entre ambos. O governo estadual negou qualquer ilegalidade, classificando a conversa como "republicana, institucional e preocupada com a instabilidade política de um município".
Durante a coletiva, o secretário Leonardo Damasceno reforçou que as mensagens entre o governador e o juiz federal não têm relação com a Operação Baest. Enquanto isso, a defesa do empresário investigado na operação afirmou que as imputações são infundadas e têm interesse político e de autopromoção, destacando que, seis meses após a conclusão do relatório, não foi oferecida nenhuma denúncia nem houve instauração de processo penal.
O Ministério Público do Espírito Santo e a defesa de Macário Júdice Neto foram procurados, mas não se manifestaram até o fechamento desta reportagem. A Polícia Civil agora avalia se abre uma segunda fase da investigação para se aprofundar nos diálogos entre o empresário e o desembargador, conteúdo que permaneceu fora do relatório oficial conforme confirmado pelo secretário de Estado de Economia e Planejamento, Álvaro Duboc.
