Empresário mais rico das eleições de 2024 é extraditado para Bolívia após quase um ano preso na Espanha
O empresário João Henrique Pinheiro, que declarou o maior patrimônio do país nas eleições municipais de 2024, com impressionantes R$ 2,8 bilhões em bens, foi extraditado para a Bolívia nesta quinta-feira (9), após passar quase um ano detido em Madri, na Espanha. Pinheiro foi preso em 27 de maio de 2025, ao desembarcar na capital espanhola, após ter seu nome incluído na lista vermelha da Interpol, a pedido das autoridades bolivianas.
Processo por estelionato milionário na Bolívia
No país vizinho, o empresário responde a um processo por estelionato relacionado a um contrato firmado em 2019 para a implantação de uma refinaria de açúcar na província de Tarija. A extradição atendeu a um pedido formal do governo boliviano, que acusa Pinheiro de envolvimento em um suposto golpe milionário contra produtores de cana-de-açúcar na região de Bermejo.
O empresário desembarcou em Tarija, no sul da Bolívia, e foi imediatamente transferido para Bermejo, onde participou de uma audiência ainda na tarde de quinta-feira. A Justiça boliviana determinou a prisão preventiva, e ele foi encaminhado para a cadeia da cidade, onde aguardará julgamento pelo caso que envolve o projeto do Complexo Industrial da Cana-de-Açúcar (Cicasa).
Defesa tentou transferência para o Brasil sem sucesso
Durante o período em que esteve preso na Espanha, a defesa do empresário tentou repetidamente transferi-lo para o Brasil, onde ele também responde a uma condenação por estelionato. A Justiça brasileira chegou a se manifestar a favor da extradição para o país. No entanto, as autoridades espanholas priorizaram o pedido da Bolívia, feito anteriormente, com base em acordo de extradição entre os dois países.
Em nota, o advogado de defesa, Luiz Eduardo Gaio Júnior, afirmou que chegou a protocolar um novo pedido de extradição para o Brasil, deferido por um juiz, mas que não teria sido encaminhado a tempo à Espanha devido à demora nos trâmites administrativos. A defesa disse ainda que aguarda as providências da Justiça boliviana e que o julgamento deve ocorrer em Bermejo, onde o caso teve origem.
Detalhes do suposto golpe milionário
O caso envolve o projeto do Complexo Industrial da Cana-de-Açúcar (Cicasa), anunciado em 2019 como uma promessa de desenvolvimento para produtores de Bermejo, no departamento de Tarija. A proposta previa a construção de uma usina com capacidade para processar cerca de 2,5 mil toneladas de cana por dia, com o objetivo de reduzir perdas na produção, gerar empregos e impulsionar a economia local.
Segundo os produtores, o projeto nunca saiu do papel. A acusação é de que o empresário teria apresentado máquinas e estruturas que não lhe pertenciam para dar credibilidade ao empreendimento. O prejuízo inicial estimado é de cerca de US$ 1 milhão, mas produtores afirmam que os danos são maiores, considerando investimentos adicionais em terrenos, estudos técnicos e obras de infraestrutura. Ao todo, cerca de 400 famílias teriam sido afetadas diretamente.
O advogado de defesa afirmou anteriormente que o negócio não foi concluído por entraves legais e chegou a ser arquivado pelo Ministério Público boliviano em 2022, sob o entendimento de que se tratava de um desacerto comercial. O inquérito, no entanto, foi reaberto em 2023, sem que o empresário fosse novamente intimado.
Candidato mais rico do Brasil em 2024
Candidato à prefeitura de Marília em 2024 pelo Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB), João Pinheiro declarou bens que somavam mais de R$ 2,8 bilhões, incluindo patrimônio da empresa Sugar Brazil e valores em poupança. Aquela foi sua primeira tentativa em assumir algum cargo na política.
A empresa chegou a ter a falência decretada em agosto de 2024, por causa de uma dívida de mais de R$ 260 mil, mas o processo foi encerrado duas semanas depois, após acordo entre as partes. Durante a campanha, o empresário chamou atenção ao participar de carreatas e eventos com carros de luxo, entre eles uma Ferrari.
Em entrevista durante a corrida eleitoral, João Pinheiro falou sobre o montante de bens declarados: "Eu vejo como algo positivo porque estamos trabalhando com a verdade. É importante que as pessoas saibam o que eu tenho. Dessa forma, as pessoas já ficam sabendo que não preciso estar na política para ter esses carros, porque eu já os tenho", disse na época.
Com a chegada à Bolívia, João Pinheiro deverá responder à Justiça local pelo processo de estelionato. O g1 entrou em contato com o Ministério das Relações Exteriores (MRE), no Palácio do Itamaraty, para comentar o caso, mas não obteve retorno até a última atualização desta reportagem.



