Cristina Kirchner enfrenta novo julgamento por corrupção em caso 'Cuadernos' na Argentina
Cristina Kirchner enfrenta novo julgamento por corrupção na Argentina

Cristina Kirchner enfrenta novo processo por corrupção em caso 'Cuadernos'

A ex-presidente da Argentina, Cristina Kirchner, deixou sua residência em Buenos Aires, onde cumpre prisão domiciliar, na manhã desta terça-feira (16) para prestar depoimento em um novo julgamento por corrupção. Ao sair, ela acenou para um grupo reduzido de apoiadores que a esperava, entrou em um veículo e seguiu para a sede dos tribunais federais argentinos.

Detalhes do caso judicial envolvendo cadernetas de propinas

O processo em questão é conhecido como "Cuadernos" e difere da investigação anterior sobre propinas na construção de estradas no sul do país, que resultou na confirmação de sua condenação no ano passado. Este novo caso envolve oito cadernetas com anotações de Oscar Centeno, ex-motorista de um funcionário do governo, que mencionam pagamentos de propinas a autoridades públicas durante o governo de Kirchner.

Centeno afirmou que Cristina Kirchner estava diretamente envolvida no esquema ilícito. O material veio à tona em 2018 através de um jornalista e sugere que o motorista transportava dinheiro para funcionários do governo de forma regular e organizada.

Declarações contundentes da ex-presidente no tribunal

Em seu depoimento perante os juízes, Cristina Kirchner fez acusações graves contra o sistema judicial argentino. Ela afirmou que uma "máfia" coagiu empresários a depor contra ela e a incriminá-la falsamente, classificando a investigação como "absurda" e expressando dificuldade em acreditar nas instituições do país.

"Estamos enfrentando juízes que não são mais imparciais, estamos em um caso onde o juiz e o promotor são mafiosos", declarou a ex-chefe de Estado. "Não se trata mais de condenar sem provas, mas forjar provas para condenar pessoas", completou, ao mencionar que os cadernos originais foram destruídos e que o caso está baseado apenas em fotocópias.

A líder peronista fez um alerta sombrio sobre sua situação: "Com este sistema judicial, posso morrer presa". No entanto, ela expressou esperança de mudança: "Mas acreditem que em algum momento isso vai terminar [...] Chegará um momento em que finalmente as coisas vão mudar", ao sugerir que o peronismo poderá retornar ao poder quando os argentinos perceberem que o modelo econômico do presidente Javier Milei não funciona.

Acusações específicas e possíveis penas

No caso "Cuadernos", Cristina Kirchner é acusada formalmente de liderar uma associação ilícita que recebia propinas de empresas vinculadas a projetos de obras públicas concedidos durante seu governo. As acusações incluem:

  • Liderança de organização criminosa
  • Suborno e corrupção ativa
  • Enriquecimento ilícito

As penas podem chegar a dez anos de prisão. Caso seja declarada culpada, a líder do Partido Justicialista somaria essa condenação à sentença anterior de seis anos que já recebeu. O processo também envolve outros 86 réus, incluindo ex-funcionários públicos e empresários, além de 626 testemunhas que serão ouvidas ao longo das audiências.

Contexto político e apoio reduzido

Em frente à casa de Cristina Kirchner, militantes kirchneristas seguravam bandeiras e gritavam palavras de apoio, mas em número significativamente menor comparado a eventos anteriores, como sua prisão em junho e a visita do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva no mês seguinte.

O movimento peronista vive um momento de fragilidade política após ser derrotado pelo grupo político de Javier Milei nas eleições legislativas de 2025, resultando em perda expressiva de força no Congresso argentino. A centralidade do kirchnerismo dentro do peronismo também tem sido questionada após a prisão da ex-presidente, com diferentes forças internas buscando assumir a liderança da oposição.

Críticas ao governo atual

Cristina Kirchner também criticou diretamente o presidente Javier Milei, argumentando que ele violou a Constituição argentina ao declarar, durante a abertura do Congresso, que ela seria declarada culpada neste caso e permaneceria presa. Essa declaração, segundo a ex-presidente, representa uma interferência indevida do Poder Executivo no Judiciário e um atentado ao Estado de Direito.

O caso "Cuadernos" representa mais um capítulo na longa batalha judicial da ex-presidente argentina, que já acumula múltiplos processos por corrupção desde que deixou o poder. O desfecho deste julgamento poderá ter impactos significativos na política argentina e no futuro do peronismo como força opositora no país.