Comando Vermelho avança na administração pública e revela liquefação política no Brasil
Crime organizado avança na administração pública brasileira

Comando Vermelho avança na administração pública e revela liquefação política no Brasil

De Cabedelo, na Paraíba, ao Rio de Janeiro, o Comando Vermelho avança de forma alarmante na administração pública brasileira. Prefeitos afastados por fraude, governadores e deputados presos ou sob investigação revelam a profunda liquefação política do país, com esquemas bilionários e eleições sob suspeita. Esta é a nova face do crime organizado, que se infiltra em estruturas governamentais com estratégias sofisticadas e alcance nacional.

Cabedelo: o exemplo nordestino da infiltração criminosa

Cabedelo, cidade singular da periferia de João Pessoa com 70 mil habitantes, foi porto importante para expedições portuguesas no século XVI. Agora, tornou-se relevante para a franquia nordestina do Comando Vermelho exportar cocaína para máfias na África e Europa. No último dia 12, a cidade elegeu Edvaldo Neto como novo prefeito, com 60% dos votos válidos.

Neto já governava desde o Natal, quando a Justiça cassou os mandatos do então prefeito André Coutinho e da vice Camila Holanda, acusados de entregar cargos e contratos públicos à Tropa do Amigão, grupo mafioso local integrado à rede nacional do Comando Vermelho. Dois dias após a eleição, uma força-tarefa policial afastou Neto e outros treze servidores, acusando-os de fraudar licitações públicas no valor de 270 milhões de reais para contratar empresas vinculadas ao crime organizado. Todos negam as acusações.

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A situação alarmante no Ceará e a expansão nacional

Cabedelo não é caso isolado. A Polícia Federal já documentou situação similar em 28 dos 184 municípios do Ceará. Alguns dos parlamentares mais votados do estado estão sob suspeita de fraude de quase 500 milhões de reais, utilizando emendas ao Orçamento federal para contratar empresas das franquias cearenses do Comando Vermelho. Esta não é uma peculiaridade nordestina, mas um fenômeno que se espalha pelo país.

Rio de Janeiro: epicentro da liquefação política

Basta olhar para o Sudeste, às margens da Baía de Guanabara, para encontrar o exemplo mais emblemático. A Assembleia Legislativa e o governo do estado do Rio estão interditados há cinco meses, desde a prisão de um chefe político regional ligado ao Comando Vermelho. Rodrigo Bacellar estava na presidência da Assembleia em dezembro quando foi preso. Na sequência, 42 dos 70 deputados votaram para soltá-lo, em desafio à decisão judicial.

Bacellar teve o mandato cassado e foi preso novamente no mês passado, mas decidiu não renunciar à presidência da Alerj, criando uma crise que embaralhou a política estadual. A manobra visava manter influência em áreas-chave do governo e na sucessão do governador Cláudio Castro, de quem havia sido principal assessor e aliado.

Esquemas bilionários e fraude eleitoral

Castro foi condenado por modificar leis estaduais para legitimar transações obscuras sob supervisão direta de Bacellar. Renunciou ao mandato para escapar da cassação, mas pode ficar inelegível. Uma das fraudes envolveu a contratação de 27.600 cabos eleitorais disfarçados de prestadores de serviços autônomos durante a campanha eleitoral de 2022, quando Castro disputava a reeleição.

A relatora do caso na Justiça Eleitoral, Isabel Gallotti, destacou a "extraordinária quantia" de saques em espécie em Campos (RJ): "Foram mais de 200 milhões de reais sacados na boca do caixa por uma mesma pessoa em uma única agência daquela cidade, reduto eleitoral de Rodrigo Bacellar". O volume atípico levou o Bradesco a monitorar ordens bancárias e alertar o governo estadual.

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A galeria da confusão estadual

A situação no Rio apresenta números alarmantes:

  • Cinco governadores presos
  • O sexto derrubado por impeachment
  • O último condenado e agora sob risco de cassação
  • Um deputado federal e seu irmão, ex-conselheiro do Tribunal de Contas, condenados a 76 anos por mandar assassinar a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Gomes
  • Quinze deputados estaduais afastados ou presos nos últimos oito anos, incluindo três presidentes da Assembleia
  • 32 dos 70 deputados estaduais sob investigação por receberem "mesadas" de donos de bancas de jogos, conforme revelado pelo ministro Gilmar Mendes no STF

O Rio de Janeiro tornou-se a melhor tradução da liquefação política brasileira, onde as fronteiras entre administração pública e crime organizado se dissolvem de forma perigosa e sistêmica. O avanço do Comando Vermelho na estrutura estatal representa um dos maiores desafios à democracia e ao Estado de Direito no Brasil contemporâneo.