Caso Master: BC viveu clima de guerra civil com servidores ligados a Vorcaro
As ações da Polícia Federal contra dois servidores do alto escalão do Banco Central, apontados como consultores informais do Banco Master, marcam a culminação de uma investigação interna lançada pela própria autoridade monetária. Em 2025, o BC viveu um clima descrito como de guerra civil enquanto apurava indícios de crimes que levaram à liquidação da instituição de Daniel Vorcaro.
Divergências e suspeitas no alto escalão
Um dos suspeitos de receber pagamentos de Vorcaro para favorecer o Master é o ex-diretor de Fiscalização (2017-2023) e então chefe-adjunto do departamento de Supervisão Bancária do BC, Paulo Sérgio Neves de Souza. Ele protagonizou divergências acaloradas com a diretoria sobre o tratamento dado ao banco ao longo de 2025, conforme apurou a Broadcast.
Lançamentos contábeis de ativos do Master chegaram a causar discussões intensas entre Souza e o presidente do BC, Gabriel Galípolo, que apontava inconsistências no balanço do banco. Na época, o Master era considerado sólido, com nota de longo prazo A-(bra) pela Fitch Ratings e balanços auditados pela KPMG, uma das big four globais.
Acumulação de indícios e manobras investigativas
As suspeitas de irregularidades na conduta de Souza e de outro servidor, Belline Santana, então chefe do departamento de Supervisão Bancária, foram se acumulando ao longo de 2025. Contudo, indícios firmes só foram encontrados em janeiro, quando o BC afastou os dois servidores e comunicou as suspeitas à PF, deflagrando a investigação.
A Polícia Federal apontou que Souza e Santana receberam pagamentos de Vorcaro para atuar de modo informal e reiterado em favor dos interesses do Master. Eles teriam oferecido orientações sobre processos administrativos, revisado minutas de documentos e tentado influenciar análises de processos.
No ano passado, já com suspeitas mas sem provas concretas, a avaliação no regulador era de que qualquer tentativa de afastar os servidores poderia ser lida como uma intervenção política no caso. Souza e Belline, com décadas de carreira no BC e vistos como servidores sérios, tinham contemporâneos estupefatos com as acusações.
A solução para avançar nas investigações em 2025 foi manobrar ao redor de Souza e Santana, usando contestações, trocas de equipes responsáveis pelas análises e outras ações, conforme relatos colhidos pela reportagem.
Impactos e desdobramentos do caso
Foi essa investigação do BC que apontou a compra de R$ 12,2 bilhões em créditos falsos do Master pelo Banco de Brasília (BRB) e resultou na primeira fase da operação Compliance Zero, que prendeu Vorcaro pela primeira vez em novembro.
Um ofício assinado por Souza foi usado pela defesa de Vorcaro como argumento para pedir a soltura do ex-banqueiro ainda no ano passado. Ele informou que a venda do Master à Fictor e a viagem de Vorcaro a Dubai em 17 de novembro haviam sido comunicadas ao diretor de Fiscalização, Ailton Aquino, em videoconferência, o que, segundo a defesa, afastava a tese de tentativa de fuga.
As suspeitas de irregularidades na conduta de Souza se estendem até o período em que ele era diretor, abrangendo toda a linha do tempo do Master: seu crescimento, o surgimento de suspeitas de fraude e a liquidação. A maior parte de sua gestão ocorreu durante a gestão do ex-presidente do BC Roberto Campos Neto, de 2019 a 2023.
Uma pessoa com conhecimento do assunto destaca que a principal dúvida agora é sobre o quanto da atuação dos ex-servidores foi técnica, levantando questões sobre a integridade dos processos regulatórios.
