Policiais argentinos intensificam protestos por melhores condições de trabalho
Na cidade argentina de Rosário, policiais realizaram nesta quarta-feira (11 de fevereiro de 2026) o terceiro dia consecutivo de protestos em frente à sede da polícia, com queima de pneus, sirenes ligadas e cartazes exigindo melhores salários e atenção à saúde mental. A manifestação ocorre em uma das cidades mais afetadas pela violência no país, onde agentes afirmam trabalhar sob condições precárias e com remuneração insuficiente.
Protesto ganha força após morte de suboficial
A mobilização ganhou impulso após a morte do suboficial Oscar Valdez, de 32 anos, na semana passada. Ele se tornou o caso mais recente de uma série de suicídios dentro das forças policiais da província de Santa Fé, onde está localizada Rosário. Manifestantes exibiam uma cruz com cerca de 20 nomes de policiais que tiraram a própria vida ou morreram em serviço, simbolizando a gravidade da situação.
Cerca de cem policiais da província voltaram a se reunir nesta quarta-feira em frente à sede policial, onde uma coluna de fumaça preta se formou após a queima de pneus. Viaturas e motos policiais também participaram do ato, com sirenes ligadas constantemente. Um cartaz destacava: "Chega de ser apenas um número, justiça pelos que já não estão aqui".
Salários insuficientes e sobrecarga de trabalho
Com salários em torno de R$ 3,1 mil por mês, os policiais afirmam que precisam realizar horas extras para complementar a renda familiar. Yamile, empregada doméstica e filha de um policial que preferiu não se identificar, explicou à AFP: "Os policiais estão muito estressados de tanto trabalhar. Saem do plantão e fazem horas adicionais. A cabeça não aguenta, o corpo não aguenta".
Ela acrescentou que a categoria pede "apenas um salário digno para que possam ao menos pagar pelos alimentos sem ter que fazer hora extra". Agentes ouvidos sob anonimato revelaram ainda que, além da carga de trabalho excessiva, precisam pagar pela internet dos escritórios, uniformes e até munições do próprio bolso.
Confrontos e medidas do governo
O protesto começou na segunda-feira (9), quando dezenas de agentes e familiares foram dispersados com empurrões por colegas, aumentando a tensão. O governo provincial informou na terça-feira (10) que 20 agentes foram suspensos por causa do protesto e determinou a entrega das armas e coletes à prova de balas, embora manifestantes afirmem que mais de 60 policiais foram punidos.
Nesta quarta-feira, o ministro da Segurança de Santa Fé, Pablo Cococcioni, anunciou a reintegração dos suspensos, prometeu atualizar salários e disse que o governo trabalha para reforçar programas de saúde mental. Apesar das promessas, o protesto continuou, com o oficial Sebastián Izquierdo afirmando à AFP: "O efetivo vai permanecer no local até vermos como vai ficar a questão do salário".
Contexto de violência em Rosário
Às margens do rio Paraná, a cerca de 300 km de Buenos Aires, Rosário é a terceira maior cidade da Argentina, com 1,3 milhão de habitantes. A região abriga um dos maiores portos agroexportadores do mundo, mas também ficou conhecida pela violência ligada ao tráfico de drogas e por ameaças a jogadores famosos nascidos ali, como Ángel Di María e Lionel Messi.
Com taxa de homicídios de 5,7 por 100 mil habitantes, Santa Fé lidera as estatísticas nacionais de violência, embora os números indiquem queda nos últimos dois anos após índices próximos de 20 por 100 mil na década passada. Esta realidade coloca os policiais sob pressão adicional, exigindo não apenas melhor remuneração, mas também suporte psicológico adequado para enfrentar os desafios diários da profissão.
