Quadrilhas especializadas em furto de celulares atuam em grandes festivais de música em São Paulo
A Polícia Civil de São Paulo conseguiu recuperar diversos celulares que foram furtados durante a edição mais recente do festival Lollapalooza, realizado no Autódromo de Interlagos. Os aparelhos foram apreendidos após a prisão de suspeitos que integravam quadrilhas especializadas neste tipo de crime em eventos com grande aglomeração de pessoas.
Tempestade perfeita para criminosos em meio à multidão
Grandes festivais de música na capital paulista, como o The Town e o Lollapalooza, criam condições ideais para a atuação de criminosos. O empurra-empurra inevitável entre milhares de pessoas, a dificuldade de comunicação devido à falha no sinal de telefone e, em dias de chuva, o terreno lamacento que exige atenção redobrada, formam o cenário perfeito para furtos discretos.
"Os furtos são feitos com uma destreza tremenda, então as pessoas nem percebem", explica o delegado Luiz Alberto Guerra, do Departamento de Operações Policiais Estratégicas (Dope). "Esse é o grande problema na identificação dos furtadores: eles não agem com violência ou ameaças."
Estratégia sofisticada e investimento dos criminosos
A polícia mapeou três grupos criminosos, cada um com cerca de dez integrantes, que atuam especificamente em shows e festivais. Diferente dos criminosos que atuam nas ruas no dia a dia, esses grupos adotam estratégias elaboradas:
- Disfarçam-se de fãs, acompanhando as tendências visuais de cada edição dos eventos
- Investem centenas de reais em ingressos, certos de que os furtos renderão lucros superiores
- São predominantemente jovens, com menos de 30 anos, mesmo perfil do público dos eventos
- Frequentemente utilizam mulheres para os furtos, pois podem se aproximar mais facilmente das vítimas
No caso do Lollapalooza deste ano, uma jovem na casa dos 20 anos foi presa no primeiro dia do evento carregando 11 celulares e uma câmera digital nos bolsos e nas roupas íntimas. A maioria dos aparelhos era composta por iPhones, incluindo o modelo mais recente que pode custar até R$ 11.500.
Dificuldades na identificação e subnotificação dos casos
O delegado Guerra destaca que as prisões são difíceis de realizar devido à dificuldade de identificar os criminosos em meio à multidão. No Lollapalooza, a polícia chegou à suspeita após uma vítima procurar o ônibus da Polícia Civil instalado próximo à entrada do festival e conseguir rastrear o celular com outro aparelho.
Foram registrados oficialmente 11 furtos neste ano no Lollapalooza — cinco a mais do que no ano passado — no posto móvel ligado à Delegacia de Atendimento ao Turista (Deatur). No entanto, o número real pode ser significativamente maior.
"Muitos frequentadores desistem de registrar um boletim de ocorrência na hora para não precisar sair do festival, perder shows e ter ainda mais prejuízo", explica Guerra. Essas vítimas acabam registrando a ocorrência pela internet ou em delegacias próximas de onde vivem, o que dificulta a localização rápida dos aparelhos.
Destino dos aparelhos furtados e consequências para os criminosos
Segundo as investigações, a maioria dos aparelhos furtados é vendida no centro de São Paulo, seja para desmonte e reaproveitamento de peças, seja para exportação. O bloqueio da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) não implica, necessariamente, no bloqueio do aparelho no exterior, facilitando o comércio internacional desses dispositivos.
Os seis suspeitos abordados nos eventos realizados neste mês — incluindo o show do cantor sertanejo Luan Santana no Allianz Parque, que reuniu mais de 50 mil pessoas — permanecerão presos. Eles tiveram a prisão em flagrante convertida em preventiva em audiências de custódia e devem ficar detidos até o julgamento.
A pena pode chegar a quatro anos de reclusão pelos furtos, com possibilidade de acréscimo de até três anos por associação criminosa, conhecida como formação de quadrilha. Metade dos aparelhos recuperados no Lollapalooza foi devolvida às vítimas no mesmo dia, enquanto o restante ainda passa por perícia e deve ser entregue nesta ou na próxima semana.



