Professor de jiu-jitsu admite contato físico em gravação enviada à família da vítima
O lutador e professor de jiu-jitsu Melqui Galvão, preso temporariamente sob suspeita de estupro, confessou em um áudio que tocou na barriga de uma aluna menor de idade, acreditando que ela estivesse dormindo. A gravação, com duração de 16 minutos e 42 segundos, foi enviada como pedido de desculpas à família da vítima, que morava em Jundiaí (SP) e treinava na academia do instrutor. A mãe da adolescente não foi identificada para preservar a filha. O g1 não localizou a defesa de Melqui Galvão para comentar as acusações até a última atualização.
No áudio, entre 12 minutos e 37 segundos e 13 minutos e 55 segundos, o suspeito afirma: “Eu não coloquei a mão por baixo da blusa da sua filha. Sua filha estava deitada em cima da [nome], a barriga dela estava aparecendo e eu toquei na barriga dela. Eu toquei rapidamente, eu achei que ela estivesse dormindo, uns três segundos talvez, no máximo. Me arrependo profundamente disso. Me arrependo profundamente de ter feito isso. Eu não dei remédio para ela dormir. A mesma alantoína [calmante] que ela tomava, eu também tomava.”
Melqui Galvão negou que tivesse chamado a aluna para o quarto com intenção sexual, justificando que os cômodos não tinham chave e que seria impossível qualquer ação com outras pessoas na casa. Disse que queria apenas conversar a sós com a menina. “Eu nunca passei mais do que um beijo no rosto dela e um abraço nela”, declarou.
Conteúdo do áudio contribuiu para prisão em Manaus
Segundo a Polícia Civil, a gravação foi fundamental para comprovar indícios de autoria e materialidade do crime, levando à prisão temporária de Melqui Galvão em Manaus (AM) na terça-feira (28). Até a tarde de quinta-feira (30), não havia previsão de transferência para São Paulo. As denúncias, reunidas pela 8ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), apontam ao menos três vítimas, incluindo uma adolescente de 17 anos e outra que tinha 12 anos na época dos fatos. Além da prisão, foram cumpridos três mandados de busca e apreensão em endereços ligados a ele em Jundiaí.
Em outro trecho do áudio, entre 7 minutos e 29 segundos e 7 minutos e 56 segundos, Melqui afirma estar em dívida com a família e diz ter deixado registros escritos que podem ser usados contra ele: “Eu estou na mão de vocês para o resto da vida agora. Eu fiz questão de deixar alguns registros escritos para que vocês possam usar, inclusive contra mim.”
Entre 10 minutos e 57 segundos e 11 minutos e 34 segundos, o suspeito reconhece que tinha uma relação de maior proximidade com a vítima, diferente de outras alunas: “As pessoas falam demais, mas eu não tenho envolvimento com ninguém, eu não tenho aproximação de nenhuma aluna, eu trato todas com respeito, eu não deixo nenhuma delas se aproximar de mim demais, todas me chamam de professor, nenhuma delas chega com brincadeira comigo, nenhuma me toca. Talvez tenha sido isso que eu tenha falhado com a [vítima], deixar ela se aproximar, deixar ela me tratar de uma forma diferente e isso criou coisas na minha cabeça. Não é culpa dela, a culpa é minha, tá? Mas é o que eu tenho para falar hoje. Se você denunciar, muita gente vai se prejudicar.”
Nos minutos finais, entre 15 minutos e 27 segundos e 15 minutos e 51 segundos, Melqui nega chantagem ou que forçaria relação sexual: “Eu nunca chantageei sua filha, jamais teria uma relação sexual com ela ou qualquer coisa do tipo, forçando, não é meu tipo isso, não é meu tipo, eu não faço isso. Eu, todo esse tempo, confundi as coisas, pela forma como ela se comporta. Eu errei de deixar talvez ela ter algumas intimidades comigo e eu não dou intimidade para ninguém. A minha cabeça confundiu as coisas e eu fiz o que eu falei para você que eu fiz aqui. Eu não fiz mais do que isso.”
Repercussão e banimento no esporte
A prisão gerou grande repercussão no meio esportivo. O filho do treinador, Mica Galvão, disse viver um momento difícil e pediu investigação rigorosa. A campeã olímpica Amit Elor, nora de Melqui, cobrou responsabilização e incentivou vítimas a denunciarem. O lutador Diogo Reis, amigo próximo de Mica, afirmou ter gratidão por Melqui, mas defendeu que as denúncias sejam apuradas e repudiou qualquer forma de violência contra mulheres e crianças.
Em nota conjunta, a Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu (CBJJ) e a International Brazilian Jiu-Jitsu Federation (IBJJF) anunciaram o banimento imediato de Melqui Galvão, proibindo sua participação em eventos e atividades ligadas às federações. As entidades afirmaram sentir “profunda indignação” e destacaram que as ações atribuídas ao treinador violam princípios éticos básicos do esporte. Também reforçaram o compromisso com a segurança de praticantes, especialmente crianças e adolescentes, e ressaltaram que casos de abuso serão tratados com rigor.
Acompanhamento psicológico da vítima
A mãe de uma das vítimas denunciou que o homem usava promessas de carreira e ameaças de cortar patrocínios para manipular e silenciar as alunas. Ao g1, a mulher contou que a família registrou boletim de ocorrência após a filha relatar o crime. Desde então, a atleta está afastada dos treinos e recebe acompanhamento psicológico. A mãe detalhou como Melqui usava a estrutura de apoio que oferecia — como alojamento, alimentação e passagens — para chantagear as atletas.



