A influenciadora digital e advogada Deolane Bezerra foi presa na manhã desta quinta-feira (21) durante a Operação Vérnix, deflagrada pelo Ministério Público de São Paulo e pela Polícia Civil para investigar um esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC). Ela foi detida em sua residência, localizada em um condomínio de luxo em Alphaville, bairro nobre de Barueri, na Grande São Paulo.
Imagens mostram o momento em que Deolane Bezerra entra no prédio da Polícia Civil, na Rua Brigadeiro Tobias, no Centro da capital paulista, após ser conduzida pelos agentes. Ao menos quatro veículos de alto padrão foram apreendidos na mansão da influenciadora: uma Cadillac Escalade, uma Land Rover Range Rover, uma Mercedes-AMG G 63 e um Jeep Commander. Os preços desses automóveis variam entre R$ 220 mil e R$ 2,5 milhões.
Operação Vérnix
De acordo com a investigação, o esquema de lavagem de dinheiro envolve uma transportadora de cargas com sede em Presidente Venceslau, interior de São Paulo, controlada pela cúpula do PCC. A empresa repassava recursos para outras contas com o objetivo de dificultar o rastreamento do dinheiro. Duas dessas contas estavam em nome de Deolane Bezerra.
Nesta quinta-feira, foram expedidos seis mandados de prisão preventiva, além de mandados de busca e apreensão. Entre os alvos estão: Deolane Bezerra; Marcola, chefe do PCC; Alejandro Camacho, irmão de Marcola; Paloma Sanches Herbas Camacho, sobrinha de Marcola; Leonardo Alexsander Ribeiro Herbas Camacho, também sobrinho de Marcola; e Everton de Souza, conhecido como "Player", apontado como operador financeiro do grupo. Marcola e Alejandro Camacho já estão presos na Penitenciária Federal de Brasília e serão comunicados sobre a nova ordem de prisão preventiva.
A Justiça determinou o bloqueio de 39 veículos avaliados em mais de R$ 8 milhões e R$ 357,5 milhões em bloqueios financeiros dos investigados. O balanço final das apreensões ainda não foi divulgado pela polícia.
Defesa e contexto
Procurado, o advogado de Deolane, Luiz Imparato, afirmou que está se inteirando dos fatos. O advogado Bruno Ferullo, que defende Marcola, também disse que ainda vai se inteirar do caso. A defesa dos demais investigados não foi localizada pela reportagem.
Deolane Bezerra passou as últimas semanas em Roma, na Itália. Seu nome chegou a ser incluído na lista da Difusão Vermelha da Interpol, mas ela retornou ao Brasil na quarta-feira (20).
Investigação detalhada
A investigação teve início em 2019, com a apreensão de bilhetes e manuscritos com dois presos na Penitenciária II de Presidente Venceslau. O material deu origem a três inquéritos policiais sucessivos, cada um revelando uma nova camada da estrutura criminosa. O primeiro inquérito focou nos dois presos que estavam com os manuscritos. A análise permitiu identificar referências a ordens internas da facção, contatos com integrantes de elevada posição hierárquica e menções a ações violentas contra servidores públicos. Esses dois indiciados foram condenados e inseridos no sistema penitenciário federal.
Entre os trechos analisados, chamou atenção a citação a uma "mulher da transportadora", que teria levantado endereços de agentes públicos para subsidiar ataques planejados pela organização criminosa. Essa menção deu origem ao segundo inquérito, que buscou identificar a mulher e a relação da transportadora com o grupo. A mulher foi identificada como Elidiane Saldanha Lopes Lemos, então sócia da transportadora Lopes Lemos. Ela já foi condenada, mas está foragida.
As diligências conduziram a uma empresa sediada em Presidente Venceslau, posteriormente reconhecida como empresa de fachada usada pelo crime organizado para lavagem de dinheiro. A investigação deu origem à Operação Lado a Lado, que em 2021 revelou movimentações financeiras incompatíveis, crescimento patrimonial sem lastro econômico suficiente e a utilização da transportadora como braço financeiro da facção.
Nessa operação, a apreensão do celular de Ciro Cesar Lemos, indicado como operador central, trouxe mais informações sobre a dinâmica de lavagem de dinheiro. Isso abriu uma nova frente de investigação sobre suspeitas de repasses financeiros e conexões com uma influenciadora digital de grande projeção nacional. As análises apontaram que Ciro Cesar Lemos atuava na compra de caminhões, realização de pagamentos, movimentava recursos da cúpula do PCC, executava ordens de Marcola e Alejandro e administrava patrimônio em nome deles. Ele está foragido, assim como a esposa.
Segundo a investigação, os valores provenientes da empresa Lopes Lemos Transportes eram destinados a Marcola, a Alejandro Juvenal Herbas Camacho Junior e a seus familiares. Para as transações, foram usadas as contas de Everton de Souza e Deolane Bezerra. A apuração constatou que a influenciadora possuía estreitos vínculos pessoais e de negócios com um dos gestores fantasmas da transportadora.
Foi a partir desse material que nasceu a Operação Vérnix, terceira etapa da investigação, voltada a esmiuçar um esquema mais amplo de lavagem de dinheiro, com ramificações empresariais, patrimoniais e financeiras. Os levantamentos apontaram a utilização de pessoas jurídicas, recebimentos de origem não esclarecida, circulação de valores milionários e aquisição ou vinculação a bens de alto padrão por parte de Deolane Bezerra. Para os investigadores, a projeção pública, a atividade empresarial formal e a movimentação patrimonial eram utilizadas como camadas de aparente legalidade para dificultar a identificação da origem ilícita dos recursos.
Risco de fuga e sofisticação do esquema
Ao decretar as prisões, a Justiça de São Paulo entendeu que havia provas do crime e indícios fortes de autoria contra todos os investigados, incluindo movimentações financeiras suspeitas e vínculos diretos com a organização criminosa. A prisão foi considerada necessária para a garantia da ordem pública, pois os investigados continuavam operando o esquema criminoso, inclusive de dentro da prisão, representando risco real de destruição de provas e interferência na investigação. A Justiça também entendeu que outras medidas cautelares seriam insuficientes diante da sofisticação do grupo e que havia risco de fuga e ocultação de patrimônio, agravado pelo fato de alguns investigados estarem no exterior.
Deolane como recebedora de dinheiro do PCC
A investigação fez cruzamentos de provas apreendidas nos últimos anos com relatórios de movimentação em contas físicas e jurídicas em nome de Deolane Bezerra para identificá-la como recebedora de dinheiro proveniente do PCC. Parte das movimentações ocorrem em depósitos em espécie, partindo do caixa do PCC por meio da transportadora de cargas, e ordenados pela cúpula da facção. Entre 2018 e 2021, Deolane recebeu em sua conta física R$ 1.067.505,00 em depósitos fracionados abaixo de R$ 10 mil, técnica conhecida como smurfing. Segundo a polícia, o intermediador era Everton de Souza, que indicava a conta de Deolane para “fechamentos” mensais.
Outro fato que aparece na investigação são quase 50 depósitos feitos a duas empresas de Deolane Bezerra, no valor total de R$ 716 mil, por uma empresa que se apresenta como banco de crédito e que tem como responsável um homem morador da Bahia que recebe em torno de um salário mínimo ao mês. A análise das contas a débito, tanto de Deolane quanto de sua empresa, mostrou que não foi identificado nenhum pagamento relacionado a esses créditos, o que é apontado pela investigação como um indício de ocultação e/ou dissimulação de recursos do PCC. Também não foram identificadas prestações de serviço como advogada que justificassem os valores repassados para as contas da influenciadora e de suas empresas. A Justiça determinou o bloqueio de R$ 27 milhões em nome de Deolane Bezerra, valor referente ao que ela não comprovou a origem, com indicativos de lavagem de dinheiro.



