Crise na Venezuela: fluxo migratório e Tren de Aragua ameaçam fronteira com Brasil
Venezuela: migração e crime organizado pressionam fronteira

A queda do regime de Nicolás Maduro na Venezuela, após sua captura por forças dos Estados Unidos no último sábado, 3 de janeiro de 2026, não encerra os problemas que se acumularam na última década. Para o Brasil, em especial na região de fronteira, dois legados da crise venezuelana se tornaram ameaças concretas e atuais: o intenso fluxo migratório e a atuação expansionista da organização criminosa Tren de Aragua.

O desafio humanitário: quase 570 mil venezuelanos no Brasil

De acordo com dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), entre 2015 e 2024, quase 570 mil venezuelanos entraram no Brasil. Esse movimento transformou a dinâmica social e pressionou os serviços públicos no norte do país.

O estado de Roraima, porta de entrada principal, concentra a maior parte dos refugiados e migrantes nos municípios de Pacaraima e Boa Vista. A situação é ainda mais delicada para crianças e adolescentes. Mais de 4.280 crianças cruzaram a fronteira desacompanhadas, separadas da família ou sem documentação adequada, segundo a agência da ONU.

"Um dos maiores desafios enfrentados no local é a capacidade de absorção dos serviços públicos locais, como nas áreas de saúde e educação, que já possuíam grandes demandas antes da entrada dos migrantes", alerta o Unicef. Para muitas crianças, a falta de documentação impede o acesso a histórico escolar e a serviços básicos, criando um ciclo de vulnerabilidade.

A ameaça criminosa: a livre atuação do Tren de Aragua

Paralelamente ao drama humanitário, uma grave ameaça à segurança se infiltra pela mesma fronteira porosa. O Tren de Aragua, facção criminosa nascida em 2014 dentro do presídio de Tocorón, na Venezuela, se aproveita do livre trânsito para expandir suas operações para o território brasileiro.

Autoridades locais em Roraima apontam que os criminosos se misturam aos fluxos de refugiados, dificultando a identificação. Uma vez no Brasil, a organização estabelece parcerias, como a registrada com o Primeiro Comando da Capital (PCC) na região Norte, e estende suas atividades até os estados do Sul, onde a proximidade linguística com países hispânicos facilita o crime transnacional.

Os líderes foragidos e a recompensa milionária

O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos mantém três principais líderes do Tren de Aragua em sua mira, oferecendo recompensas milionárias por informações que levem à sua captura.

Hector Rusthenford Guerrero Flores, o "Niño Guerrero" (41 anos), é o líder máximo. Procurado por homicídios, tráfico e contrabando, ele transformou a gangue prisional em uma organização com influência em todo o Hemisfério Ocidental. Os EUA oferecem US$ 5 milhões (cerca de R$ 27 milhões) por pistas sobre seu paradeiro, que pode ser inclusive no Brasil, dada a fiscalização frágil na fronteira norte.

Yohan José Romero, conhecido como "Johan Petrica" (47 anos), é um aliado próximo de Guerrero e responsável pelas operações ilegais de mineração do grupo. Ele controlou áreas de extração de ouro perto de Las Claritas, na fronteira da Venezuela com Brasil e Guiana. Por ele, a recompensa é de US$ 4 milhões (aproximadamente R$ 21 milhões).

Giovanni Vicente Mosquera Serrano (37 anos) completa o trio na cúpula e integra a lista dos 10 mais procurados do FBI. A agência americana classifica o Tren de Aragua como uma violenta gangue transnacional e organização terrorista, responsável por tráfico de drogas, armas, pessoas e crimes violentos nos EUA.

Um cenário de incertezas após Maduro

A captura de Nicolás Maduro, que também foi acusado pela Justiça americana de narcotráfico junto com seu filho, sua esposa, o ministro Diosdado Cabello e o próprio Niño Guerrero, abre um novo capítulo. No entanto, para o Brasil, os problemas gerados durante seu governo na fronteira com a Venezuela — a pressão migratória e a infiltração do crime organizado — permanecem como desafios urgentes que exigem atenção contínua e cooperação internacional para serem enfrentados.