Operação Contenção Red Legacy desmantela esquema de corrupção entre PMs e facção criminosa
A Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrou nesta quarta-feira (11) uma operação de grande impacto que resultou na prisão de seis policiais militares acusados de forjar uma apreensão de drogas em conluio com a cúpula do Comando Vermelho (CV). A investigação, conduzida pela Delegacia de Combate ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro (DCOC-LD), expõe um esquema elaborado para simular eficiência operacional mediante acordos ilícitos com traficantes.
Diálogos revelam combinação entre major e braço direito de chefão do CV
De acordo com as apurações, o então comandante da 13ª UPP/16º BPM (Penha), major Hélio da Costa Silva, teria entrado em contato no dia 13 de março de 2025 com Washington Cesar Braga da Silva, o Grande, identificado como braço direito do traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca, um dos principais líderes do Comando Vermelho. O objetivo da ligação era solicitar o fornecimento de entorpecentes para montar uma ocorrência policial falsa.
As investigações indicam que a justificativa apresentada pelo major seria a cobrança por metas de produtividade impostas pela Coordenação de Polícia Pacificadora (CPP). Em resposta, Doca autorizou a entrega do material e orientou Grande a buscar 70 quilos de maconha que já estariam separados para essa finalidade com um comparsa conhecido como Deu.
Conversas de WhatsApp detalham o plano criminoso
A extração de mensagens do aplicativo de mensagens revelou diálogos elucidativos entre os envolvidos. Na troca de mensagens, onde "Deus É Fiel" é o apelido de Doca, Grande informa: "Major ligou, disse que se tem como fazer uma ocorrência pra ele amanhã, CPP cobrou pra ele". Doca responde: "Tem sim. Tem uns kl de mato. Pega lá com o Deu 70 kl de maconha e articula. Fala que é o mato que é para apreensão".
Grande complementa: "Jaé, eu separei também umas cargas velhas com Isaque. Precisa só de um carro", ao que Doca orienta: "Pega com o Gadernal". O interlocutor finaliza: "Jaé, vou articular tudo, vejo como e onde vai ser e passo pro senhor!".
Encenação policial foi montada na Penha com veículo roubado
A falsa apreensão ocorreu em 19 de março de 2025, na Rua Iracema 259, na Penha, a aproximadamente 500 metros da sede da UPP. Para a encenação, o tráfico utilizou um veículo Tiggo que havia sido roubado em 30 de janeiro de 2025, em Duque de Caxias. O carro foi abandonado no local combinado contendo as drogas e um simulacro de fuzil AR-15 desmontado.
No registro feito na 22ª DP, os sargentos Rodrigo Paiva Lopes e Thiago Monteiro Gomes Marcelino relataram que estavam em patrulhamento quando foram alvo de disparos de criminosos. Eles afirmaram ter revidado à "injusta agressão" com cerca de 20 disparos de fuzil calibre 7,62 mm, e que os suspeitos fugiram, abandonando o veículo com o material. A ocorrência foi registrada como tentativa de homicídio.
Provas desmontam versão dos policiais e revelam troca de favores
Segundo a Polícia Civil, a narrativa apresentada pelos policiais não se sustentou diante das evidências coletadas. A investigação aponta que, após a apreensão, Grande enviou a Doca um vídeo mostrando os policiais exibindo a droga e o fuzil desmontado. Na mensagem, ele teria informado que o major havia "agradecido".
Um laudo pericial posterior confirmou que a quantidade de droga apreendida — mais de 60 quilos de maconha e 2 quilos de cocaína — era compatível com o volume autorizado por Doca. Os policiais não preservaram o local para perícia, e o veículo foi liberado como recuperado, o que, segundo as investigações, pode ter evitado a realização de exames papiloscópicos.
Para a Polícia Civil, o episódio fazia parte de um esquema para forjar legalidade e simular eficiência operacional. Em troca do fornecimento de cargas de drogas para "bater metas", agentes públicos assegurariam tolerância e proteção às atividades do Comando Vermelho na Vila Cruzeiro.
Envolvidos são indiciados por múltiplos crimes
Os seis policiais militares presos foram indiciados pelos crimes de:
- Tráfico de drogas
- Associação para o tráfico
- Corrupção passiva
- Fraude processual
Os PMs detidos na operação são:
- Hélio da Costa Silva, major
- Leandro Oliveira Loiola
- Reuel de Almeida Silva Fernandes, capitão
- Rodrigo Paiva Lopes
- Thiago Monteiro Gomes Marcelino
- Thomás dos Santos Machado
As defesas dos citados não haviam se manifestado até a última atualização desta reportagem. A operação Contenção Red Legacy continua em andamento, com possibilidade de novas prisões e desdobramentos.



