Operação Bazaar desmantela esquema de corrupção na Polícia Civil paulista com nove prisões
Uma operação conjunta entre o Ministério Público de São Paulo, a Polícia Federal e a Corregedoria Geral da Polícia Civil resultou na prisão de nove pessoas suspeitas de integrarem um esquema de corrupção sistêmica e lavagem de dinheiro dentro de departamentos estratégicos da Polícia Civil de São Paulo. A Operação Bazaar, deflagrada na quinta-feira (5), teve como alvo policiais civis, advogados e operadores financeiros envolvidos em negociações ilícitas para interromper investigações criminais.
Áudios revelam negociações de propina milionárias
As investigações, conduzidas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público, se basearam em áudios e mensagens de celulares apreendidos que mostram tratativas para pagamento de vantagens indevidas. Em um dos diálogos, o advogado Guilherme Nasser negocia com o doleiro Cléber Azevedo dos Santos o pagamento de R$ 50 mil em propina para interromper a apuração de um inquérito policial aberto em outubro de 2022.
Nasser afirmou em áudio: "Eu acho que uns 'cinquentinha' de um lado, 'cinquentinha' de outro, a gente consegue matar isso daí, entendeu? Eu acredito. Comigo eles não 'acharcam' porque esse delegado aí, eu conheço muito ele, tá? Ele deve muito pra mim. Então eu consigo tirar isso aí numa boa." O delegado mencionado, identificado como João Eduardo da Silva, foi preso na operação.
Esquema envolvia valores exorbitantes e métodos sofisticados
As investigações revelaram que o esquema criminoso operava com valores que variavam de R$ 10 mil a R$ 33 milhões em propina. Em uma conversa, um dos investigados menciona que um delegado já teria recebido mais de R$ 20 milhões em pagamentos ilícitos. Outro áudio cita a cobrança de R$ 5 milhões para trancar um inquérito, descrito como "absurdo" pelo interlocutor.
Os policiais corruptos atuavam principalmente no 16º Distrito Policial (Vila Clementino) e no 35º Distrito Policial (Jabaquara), além do hangar do Serviço Aerotático da Polícia Civil no Campo de Marte. O esquema funcionava de duas formas principais:
- Policiais solicitavam relatórios de inteligência financeira (RIFs) sobre potenciais alvos e cobravam dinheiro para não dar andamento às investigações.
- Doleiros ofereciam propina diretamente para interromper processos em curso.
Para ocultar a origem dos recursos ilícitos, a organização criminosa utilizava métodos sofisticados, incluindo empresas de fachada, simulação de operações de importação e a conversão de dinheiro em espécie em créditos de vales-refeição através de estabelecimentos comerciais fictícios.
Nove presos e medidas cautelares impostas
Entre os nove presos estão:
- João Eduardo da Silva (delegado do 35º DP)
- Roldnei Eduardo dos Reis Baptista (investigador do DPPC)
- Rogério Coichev Teixeira (investigador do Serviço Aerotático)
- Ciro Borges Magalhães Ferraz (escrivão no 35º DP)
- Meire Bonfim da Silva Poza (doleira)
- Cléber Azevedo dos Santos (doleiro)
- Robson Martins de Souza
- Antônio Carlos Ubaldo Júnior
- Marlon Antonio Fontana (advogado)
A Justiça autorizou ainda 23 mandados de busca e apreensão e o bloqueio de bens e valores dos investigados. Guilherme Nasser, que não foi preso, foi alvo de busca e apreensão e teve medidas cautelares impostas. Em nota, seu escritório afirmou que "a medida cautelar representa verdadeira intimidação à atividade da advocacia" e negou qualquer irregularidade.
Resposta institucional e continuidade das investigações
A Secretaria da Segurança Pública (SSP) emitiu nota informando que a Corregedoria da Polícia Civil participa ativamente da operação e que "a Polícia Civil não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes e adotará todas as medidas legais e disciplinares cabíveis caso sejam confirmadas quaisquer irregularidades".
As investigações continuam para apurar a extensão completa do esquema, que segundo as autoridades, transformava delegacias especializadas em centros de negociação para garantir impunidade a criminosos. Os agentes públicos presos responderão por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro, assim como os doleiros envolvidos no esquema.
