A delegada Layla Ayub, que havia acabado de assumir um cargo na Polícia Civil de São Paulo, foi presa sob suspeita de manter vínculos com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC). Em depoimento à Corregedoria da polícia paulista, ela teria admitido ter dado "bobeira" ao atuar como advogada de um membro da organização no Pará, mesmo após sua posse como agente do estado.
Advocacia irregular e conexão com o crime
O caso veio à tona após publicação do jornal O Estado de S. Paulo, que teve acesso ao depoimento de mais de cinco horas prestado por Layla na última sexta-feira (16). A delegada, que foi empossada em 19 de dezembro junto com outros 523 novos agentes, participou como advogada em uma audiência de custódia em Marabá, no Pará, defendendo um integrante do PCC.
Ela alegou que já havia solicitado o cancelamento de sua inscrição na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), mas, como o desligamento ainda não havia sido formalizado, decidiu atuar na audiência. Layla não se declarou inocente durante o interrogatório e teria dito que "não errou sozinha", antes de ser encaminhada para a carceragem do 6º DP (Cambuci).
Agora, ela responde por exercício irregular da profissão e por integrar organização criminosa. Também é investigada por falsidade ideológica e associação para o tráfico. A polícia apura ainda a compra de uma padaria na zona leste de São Paulo, no valor de R$ 100 mil, que seria usada para lavar dinheiro do PCC.
"Ousadia absurda": namorado líder do PCC na posse
Um dos fatos que mais chocou as autoridades foi a presença do namorado de Layla, Jardel Neto Pereira da Cruz, conhecido como Dedel, na cerimônia de sua posse como delegada. Ele é apontado como uma das lideranças do PCC na região Norte do país.
O juiz Fernando Deroma de Mello, da 2ª Vara de Crimes Tributários e Organização Criminosa, classificou a atitude como "ousadia absurda" e "deboche" contra as autoridades. Em sua decisão, ele destacou a gravidade de um suposto integrante do alto escalão da facção, com condenações criminais, comparecer à posse de sua companheira na Academia de Polícia.
O promotor Carlos Gaya, do Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado), também se referiu ao episódio como um "demonstrativo de audácia". Ele ressaltou que Layla, como advogada, tinha ciência de que o companheiro descumpria seu regime de livramento condicional e de sua autodenominada filiação à facção.
Relação com a facção e investigações
As investigações indicam que Layla pode ter sido cooptada pelo PCC durante o exercício da advocacia, aprofundando os laços a partir do relacionamento com Dedel. No entanto, o Ministério Público acredita que se tratou de uma ação individual, e não de um plano da facção para infiltrar uma agente na polícia.
Ela também teria participado, em dezembro, de uma audiência de custódia no Pará como advogada de quatro criminosos presos por tráfico e associação criminosa – ato proibido pelo Estatuto da Advocacia para ocupantes de cargos públicos.
O secretário de Segurança, Osvaldo Nico Gonçalves, afirmou que a delegada não tinha comportamentos anteriores "que a desabonassem", mas lembrou que os aprovados em concurso ficam em estágio probatório por três anos, sujeitos a investigação.
O perfil do namorado e os próximos passos
Jardel Neto, o Dedel, que nega pertencer ao PCC, foi preso pela última vez em 2023, em Marabá, e cumpria pena por tráfico em liberdade condicional. Ele tenta carreira como MC e lançou uma música chamada "Senta" no início de 2026, com letras que fazem referência a armas.
Layla Ayub está presa temporariamente por 30 dias, com possibilidade de prorrogação. A polícia trabalha para identificar todos os seus clientes e traçar as relações entre eles, incluindo o próprio companheiro, que também era seu cliente. Sete mandados de busca e apreensão foram cumpridos em São Paulo e Marabá.
Antes de virar delegada, Layla atuou como policial no Espírito Santo e como consultora jurídica no Pará, se apresentando nas redes sociais como ex-advogada criminalista. O espaço para manifestação de sua defesa segue aberto.