Vítimas de pastor acusado de abusos são ouvidas em delegacia de Paço do Lumiar
As pessoas que afirmam ter sido vítimas do pastor cearense David Gonçalves Silva começaram a ser ouvidas nesta quarta-feira (22) na Delegacia de Paço do Lumiar, na Grande São Luís. Além das supostas vítimas, testemunhas também devem prestar depoimentos sobre os crimes atribuídos ao líder religioso, que foi preso na última sexta-feira (17) durante a operação "Falso Profeta".
Investigação detalha sistema de punições na igreja
David Gonçalves Silva é suspeito de usar a igreja Shekinah House Church, liderada por ele, para aplicar castigos físicos e punições psicológicas contra fiéis. Após dois anos de investigação da Polícia Civil do Maranhão, o pastor foi detido pelos crimes de estelionato, estupro de vulnerável, posse sexual mediante fraude e associação criminosa.
Três pessoas já foram ouvidas sobre o caso, e mais oito ainda devem depor entre esta quarta e quinta-feira (23). "A gente conseguiu, depois da prisão dele, contato via WhatsApp com várias vítimas pelo Brasil e aqui em São Luís, que se propuseram a vir à delegacia e prestar depoimento sobre os fatos que viveram naquela igreja", explicou o delegado Sidney Oliveira de Sousa, responsável pelas investigações.
Mulher do pastor também será ouvida
Além das possíveis vítimas e testemunhas, a Polícia Civil deve ouvir a mulher do pastor, que, assim como ele, é psicóloga e também pastora. O delegado Sidney Oliveira destaca que, após os depoimentos, as investigações devem continuar para identificar outros envolvidos nos crimes.
"A gente também está desenvolvendo a investigação para identificar os outros envolvidos, que também praticaram os crimes com ele. O inquérito (que está aberto) deve encerrar, mas em relação aos que estão soltos, a gente ainda deve prosseguir nas investigações. Então, vamos colher o máximo de informações possíveis sobre todos os crimes que eram cometidos ali dentro", destacou o delegado.
Sistema organizado de violência
Segundo depoimentos das vítimas, a igreja mantinha um sistema organizado de punições físicas e psicológicas. Entre as vítimas estão pessoas em situação de extrema vulnerabilidade, que relatam ter procurado a igreja em busca de ajuda.
"Eu cheguei com 13 anos de idade. Estava na rua, em situação de vulnerabilidade, e pensando que estava me refugiando para ter uma ajuda, mas infelizmente vivi uma prisão por vários anos. Até hoje sou traumatizado por conta de tudo que vivi, por conta de abuso sexual e psicológico", disse uma das vítimas.
Castigos com nomes específicos
As agressões eram frequentes e tinham nomes específicos. Um dos castigos aplicados era chamado de "readas", que consistia em chicotadas com um reio, um tipo de chicote geralmente usado em cavalos. De acordo com uma das vítimas, os castigos eram aplicados sempre que alguém descumpria regras internas ou contrariava ordens do pastor.
O sistema de punições ajudou o pastor a manter controle sobre cerca de 100 a 150 fiéis por anos. A investigação aponta que as agressões físicas e psicológicas também eram usadas como forma de pressão para a prática de abusos sexuais.
"Se a gente não fizesse o que ele queria, a gente era punido. Ele deixava a gente de canto, fazia a gente ficar sem comer, fazia a gente apanhar se a gente não fizesse o desejo dele", relatou uma das vítimas.
Privação de comida como punição
O g1 teve acesso a um dos áudios atribuídos ao pastor que indicam também a privação de comida como forma de punição. Em uma das gravações, ele afirma: "Até resolver a situação da bomba, estão sem comer".
Segundo prints de mensagens enviadas por uma das vítimas à TV Mirante, o pastor dava ordens diretas, como "readas geral", e determinava quantos golpes cada fiel deveria receber. Em um dos casos, quatro vítimas sofreram entre 15 e 25 chicotadas cada.
Terminologia reveladora
Ainda de acordo com a denúncia, o pastor se referia aos fiéis como "piões". O local onde eles dormiam era chamado de "baia". A investigação já identificou, até o momento, entre cinco e seis vítimas relacionadas aos crimes investigados, com outras pessoas sendo identificadas e ouvidas inclusive nos estados do Pará e do Ceará.
O pastor, que está preso preventivamente, deve passar por audiência de custódia. Em nota, a defesa do pastor informou que, no momento, não pode se manifestar porque ainda não teve acesso aos autos da investigação.



