Depoimentos revelam tortura e cárcere privado em clínica de reabilitação interditada em Londrina
Tortura e cárcere privado em clínica de reabilitação em Londrina

Clínica de reabilitação em Londrina é interditada após revelações de tortura e cárcere privado

Uma sócia e quatro funcionários da Comunidade Terapêutica Escolha Certa, localizada em Londrina, no norte do Paraná, foram presos preventivamente após serem acusados de torturar pacientes e mantê-los em cárcere privado. A clínica foi interditada na segunda-feira (6) após uma vistoria conjunta do Ministério Público do Paraná (MP-PR) e da Vigilância Sanitária municipal, que descobriu condições alarmantes de funcionamento.

Prisões e acusações graves

Os cinco presos são Bruno Guilherme Marques Calixtro, Gustavo Fabri de Carvalho e Leonardo Reis Costa (funcionários), Luiz Gabriel Weiss Alberto (coordenador) e Stefani Mayara Couto (esposa do proprietário e sócia). Eles foram detidos em flagrante pelos crimes de sequestro e cárcere privado, alteração de produtos terapêuticos ou medicinais e tortura. A Justiça converteu o flagrante em prisão preventiva após audiência de custódia. O proprietário da clínica não foi localizado durante a operação e seu nome não foi divulgado pelas autoridades.

Condições degradantes e violações sistemáticas

De acordo com o MP-PR, os internados na clínica eram dependentes químicos, pessoas com transtornos mentais, idosos e pessoas com deficiência. Durante a vistoria, mais de 30 pacientes homens foram encontrados trancados em um único cômodo por mais de 10 horas, sob o pretexto de estarem em um processo de "descansoterapia" – prática que as vítimas relataram ser frequente.

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Os depoimentos colhidos revelam um cenário de violações graves:

  • Pacientes eram obrigados a comer comida estragada ou recebiam alimentação insuficiente
  • Não havia acompanhamento adequado por equipe de saúde
  • Quem reclamava das condições era torturado e agredido física e psicologicamente
  • Alimentos enviados pelas famílias eram consumidos pelos funcionários, não pelos internos
  • Havia restrição severa de contato com familiares

Medicação desconhecida apelidada de "danoninho"

Um dos achados mais preocupantes foram quatro garrafas contendo uma medicação líquida desconhecida, apreendida pela polícia. Os pacientes revelaram que eram forçados a ingerir essa substância, apelidada de "danoninho" pelos funcionários, com o objetivo de fazê-los dormir por dias consecutivos. Quando apresentavam efeitos colaterais graves – como um paciente que começou a cuspir sangue – o atendimento médico era negado. O material foi encaminhado para perícia.

Relatos das vítimas expõem brutalidade

Os depoimentos prestados à polícia detalham a brutalidade do tratamento:

"Inicialmente o pessoal chegou na minha mãe e relatou que eu ia fazer uma consulta. Quando cheguei aqui não tinha nada disso. O pessoal já correu, me abraçou à força e me trancaram num quartinho. Me forçaram a beber um líquido que eles falam que é o 'danoninho', que são vários remédios, e me doparam", relatou um paciente não identificado.

Outro interno contou: "Fui pego por eles dentro da minha casa. Me enforcaram, me deram um mata leão e quando eu cheguei aqui, me doparam de remédio. [...] Eles amarram a gente na enfermaria".

Infraestrutura precária e falta de documentação

A vistoria – que contou com apoio da Secretaria Municipal de Saúde, Secretaria Municipal do Idoso, fiscais do Conselho Regional de Medicina, Polícia Militar e Guarda Municipal – constatou que a clínica não apresentava condições básicas de funcionamento, nem documentação adequada.

"A clínica não apresentava as condições básicas de funcionamento, nem documental, como alguns critérios clínicos necessários", afirmou Vivian Feijó, secretária de saúde de Londrina.

Entre as deficiências encontradas:

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  1. Banheiros e camas quebradas
  2. Medicamentos e alimentos vencidos
  3. Ausência de atendimento médico regular (apenas um enfermeiro visitava a cada 15 dias)
  4. Pacientes feridos sem receber cuidados adequados
  5. Retenção de documentos pessoais dos internados

Histórico de problemas e medo de retaliação

A promotora Susana Lacerda informou que a clínica já havia sido alvo de autuações anteriores. Denúncias recebidas pela 24ª Promotoria de Justiça de Londrina motivaram a nova vistoria. Segundo o MP, "o pavor de retaliação é presente de forma uníssona nos depoimentos das vítimas", havendo ainda relatos de que os pacientes eram obrigados a forjar cartas para familiares dizendo que estava tudo bem.

A operação expôs falhas graves em um estabelecimento que deveria oferecer cuidado e tratamento, mas que se tornou cenário de violações sistemáticas de direitos humanos. As investigações continuam para apurar a extensão total dos crimes e localizar o proprietário da clínica, que segue foragido.