Réu alega coerção e monitoramento constante durante maior chacina da história do Distrito Federal
Em um depoimento que trouxe novas revelações sobre o caso mais brutal da capital federal, Gideon Batista de Menezes, um dos cinco réus acusados pela morte de dez membros de uma mesma família, afirmou durante interrogatório nesta quarta-feira (15) que era "constantemente monitorado" e que foi coagido a participar dos crimes. O julgamento da maior chacina da história do Distrito Federal, que já completa seu terceiro dia, continua a desvendar os detalhes macabros do plano criminoso que chocou o Brasil.
Versão do réu contradiz narrativa da acusação
Durante sua oitiva no tribunal do júri, Gideon sustentou consistentemente a versão de que foi forçado a participar das ações criminosas. "Eu ficava amarrado e só era desamarrado quando precisava executar tarefas", declarou o réu, que também afirmou que outro acusado, Horácio Carlos Ferreira Barbosa, igualmente seria vítima de coerção dentro do grupo criminoso.
Uma das revelações mais impactantes do depoimento foi a afirmação de que Thiago Belchior, uma das dez vítimas executadas, participou inicialmente do plano criminoso. Segundo Gideon, Thiago era "discreto" e por isso não aparecia nas imagens de vigilância exibidas pela acusação, mesmo estando presente durante vários momentos dos crimes.
Cronologia detalhada dos crimes revela brutalidade extrema
A denúncia do Ministério Público do Distrito Federal descreve um plano cruel e meticuloso que se desenrolou ao longo de semanas, com os acusados atuando de forma coordenada e utilizando violência extrema contra as vítimas. A investigação revela uma sequência de eventos que começou em outubro de 2022 e culminou com uma série de assassinatos em janeiro de 2023.
Segundo a cronologia apresentada pela acusação:
- Em outubro de 2022, Gideon, Horácio, Fabrício e Carlomam se associaram para cometer crimes, contando também com a participação de um adolescente.
- No dia 27 de dezembro de 2022, três membros do grupo renderam Marcos Antônio Lopes de Oliveira, sua esposa Renata Juliene Belchior e sua filha Gabriela Belchior em uma chácara, roubando aproximadamente R$ 49 mil.
- As vítimas foram levadas para um cativeiro em Planaltina, onde Marcos foi morto e teve seu corpo esquartejado por Gideon e Horácio.
- Entre 2 e 4 de janeiro de 2023, Cláudia Regina Marques de Oliveira e sua filha Ana Beatriz foram rendidas em sua casa no Lago Norte e levadas para o mesmo cativeiro.
- No dia 12 de janeiro, Thiago Gabriel Belchior foi atraído até a chácara Quilombo através de mensagens enviadas pelos criminosos e sequestrado.
- Nos dias 12 e 13 de janeiro, utilizando o celular de Thiago, os criminosos convenceram sua esposa Elizamar a ir até a chácara com seus três filhos pequenos, que foram posteriormente mortos por estrangulamento e tiveram seus corpos carbonizados dentro de um veículo.
- No dia 14 de janeiro, Renata e Gabriela Belchior, que permaneciam em cativeiro desde dezembro, foram levadas para Unaí (MG) e igualmente assassinadas por estrangulamento, com seus corpos sendo queimados.
- No dia 15 de janeiro, Cláudia, Ana Beatriz e Thiago foram levados até uma cisterna em Planaltina, onde foram assassinados a golpes de faca e tiveram seus corpos cobertos com terra e cal.
Procedimentos do julgamento e alegações dos réus
Durante o julgamento, que segue com os cinco réus prestando depoimento individualmente, Gideon comentou imagens exibidas pela acusação afirmando que nunca estava sozinho, mesmo quando aparecia dirigindo em gravações. O réu também declarou que o adolescente mencionado no processo participou apenas no início das ações criminosas e depois não teve mais contato com o grupo.
O procedimento judicial estabelece que enquanto um réu fala, os demais não podem acompanhar a sessão, garantindo que cada depoimento seja dado sem influência dos outros acusados. Esta medida busca assegurar a veracidade e independência dos testemunhos durante o julgamento histórico.
Crimes imputados e possíveis penas
A denúncia da Promotoria de Justiça do Tribunal do Júri de Planaltina inclui uma extensa lista de crimes com penas que podem somar décadas de prisão:
- Homicídios qualificados: de 12 a 30 anos de prisão
- Extorsão: quatro a 10 anos de prisão
- Roubo: quatro a 10 anos de prisão
- Sequestro: de dois a oito anos de prisão
- Constrangimento ilegal: de três meses a um ano de prisão
- Fraude processual: de três meses a dois anos de prisão
- Corrupção de menores: de um a quatro anos de prisão
- Ocultação e destruição de cadáver: de um a três anos de prisão
O caso, que continua a ser acompanhado de perto pela sociedade brasileira, representa um dos julgamentos mais complexos e significativos da história jurídica do Distrito Federal, com implicações profundas para o sistema de justiça criminal brasileiro.



