Julgamento revela versões conflitantes sobre assassinato de advogado no Centro do Rio
O julgamento dos três réus acusados de assassinar o advogado Rodrigo Marinho Crespo, ocorrido em 2024 no Centro do Rio de Janeiro, tomou um rumo surpreendente nesta sexta-feira, 6 de março de 2026. Durante seu depoimento, o réu Cezar Daniel Mondego apresentou uma versão que contrasta radicalmente com as alegações do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ).
Versão do réu: crime passional por encomenda
Mondego afirmou categoricamente aos jurados e à corte que foi contratado por um homem identificado apenas como "Márcio" para seguir e, posteriormente, executar o advogado. Segundo seu relato, o suposto contratante alegava que Rodrigo Crespo mantinha um relacionamento amoroso com sua esposa, configurando uma situação de traição conjugal.
"Fui procurado por esse Márcio, que disse estar sendo traído. Ele me pediu para acompanhar os passos do advogado. Não sabia o sobrenome dele nem tinha seu telefone", declarou Mondego durante a sessão judicial. O réu sustentou que aceitou a empreitada movido pela promessa de pagamento, sem questionar profundamente as motivações do suposto marido traído.
Contestação da promotoria: disputa por mercado milionário
O promotor Bruno Faria, representante do MPRJ, rejeitou veementemente a narrativa apresentada por Mondego. Em sua argumentação, Faria destacou que as investigações apontam para uma motivação completamente diferente: uma disputa pelo controle do lucrativo mercado de apostas esportivas na Zona Sul do Rio.
De acordo com as provas coletadas, Rodrigo Crespo planejava abrir um estabelecimento do ramo, um "Sports Bar", no bairro de Botafogo. Essa iniciativa, segundo o MPRJ, colidia diretamente com os interesses de um grupo criminoso ligado ao bicheirismo que domina a região.
Contexto territorial e mudança de poder
As investigações do caso revelam um cenário complexo de disputa territorial. O controle da área de Botafogo teria transitado das mãos de Bernardo Bello para o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como "Adilsinho", no início de 2023. A entrada de um novo player no mercado, especialmente um profissional como Crespo com planos de estabelecer um negócio legalizado, representava uma ameaça aos esquemas ilegais já consolidados.
"A região tem sido palco de uma intensa disputa de influência entre grupos de bicheiros. A vítima foi executada porque seu projeto empresarial interferia nos interesses criminosos", afirmou o promotor Bruno Faria durante sua exposição.
Desdobramentos do processo e próximos passos
O julgamento, que segue sob intensa atenção da mídia e do público, agora se concentra em desvendar qual das duas versões – a passional apresentada pelo réu ou a econômica sustentada pela acusação – será aceita pelo tribunal do júri. A defesa de Mondego busca consolidar a tese do crime por encomenda motivado por ciúmes, enquanto o MPRJ insiste nas evidências que ligam o assassinato a uma guerra pelo controle do mercado de apostas.
Os outros dois réus envolvidos no caso ainda devem prestar seus depoimentos nas próximas sessões, o que pode trazer novas revelações sobre o planejamento e execução do crime. A família de Rodrigo Crespo acompanha o processo na expectativa de que a justiça esclareça completamente as circunstâncias da morte do advogado e puna todos os responsáveis.
O caso expõe as complexas relações entre crime organizado, negócios legais e violência urbana no Rio de Janeiro, servindo como um alerta sobre os desafios enfrentados por empreendedores que atuam em setores historicamente permeados por atividades ilícitas.
