Polícia pede prisão de Tenente-Coronel pela morte da PM Gisele Alves
A Polícia Técnico-Científica de São Paulo realizou aproximadamente 24 laudos periciais em menos de 30 dias para auxiliar a Polícia Civil a determinar que a policial militar Gisele Alves foi assassinada com um tiro na cabeça pelo marido, o tenente-coronel Geraldo Neto. O crime ocorreu em 18 de fevereiro no apartamento do casal, localizado no Brás, região central da capital paulista. O caso completa um mês nesta quarta-feira (18), com o inquérito policial encerrado na terça-feira (17).
Do suicídio ao feminicídio: a mudança na investigação
Inicialmente investigado como suicídio e posteriormente como morte suspeita, o caso foi concluído como feminicídio (homicídio contra mulher por questões de gênero) e fraude processual (adulteração da cena do crime). Dois laudos foram determinantes para o delegado solicitar a prisão: a trajetória da bala que atingiu a cabeça e a profundidade dos ferimentos encontrados. Esses indícios levaram à conclusão de que ela não cometeu suicídio.
O 8º Distrito Policial (DP), no Brás, indiciou o tenente-coronel Geraldo Neto pelos crimes e pediu à Justiça a prisão preventiva dele, com aval do Ministério Público de São Paulo. A Corregedoria da Polícia Militar também solicitou a prisão. Até o momento, o Poder Judiciário ainda não se manifestou sobre o pedido.
Laudos periciais: volume e detalhes incomuns
Parte do entendimento das autoridades se deve ao trabalho do Instituto de Criminalística (IC) e do Instituto Médico Legal (IML). Peritos e especialistas consideram o número de quase um laudo por dia elevado em comparação a exames feitos em casos similares. Foram realizados laudos complementares e outros exames refeitos por diversos núcleos da perícia, totalizando 70 páginas com informações técnico-científicas.
"São muitos laudos. Se o médico tivesse feito com mais critério, não iria gerar um laudo complementar. Então a pressa gera mais dúvida e vai se juntar no processo um número grande de laudos", afirmou Roselle Soglio, advogada especialista em perícias criminais. Célia Corrigliano, perita criminal aposentada com quase 30 anos de experiência na Polícia Científica de São Paulo, destacou que casos de repercussão "exigem mais celeridade".
Exames cruciais para a investigação
Resultados de exames, como o necroscópico, o da exumação do corpo e o toxicológico, foram fundamentais para a delegacia concluir que Geraldo matou Gisele por ciúmes e possessividade. O oficial tem 53 anos, enquanto Gisele tinha 32. Muitos dos laudos foram refeitos a pedido da própria investigação devido a dúvidas sobre as circunstâncias da morte da soldado.
- Necroscópico: concluiu que Gisele tinha marcas de dedos no pescoço e desmaiou antes de ser baleada e morta com um tiro na cabeça.
- Trajetória do tiro: apontou que o disparo foi dado de baixo para cima e com o cano encostado na cabeça.
- Exumação: vários exames foram refeitos no corpo, incluindo complementares como o necroscópico.
- Toxicológico: não encontrou resquícios de álcool ou drogas, descartando a possibilidade de ela ter bebido ou estar dopada.
- Residuográfico: não detectou pólvora nas mãos de Gisele nem nas de Geraldo.
- De local de crime: Gisele foi encontrada caída e segurando a arma, o que é incomum em casos de suicídio, segundo peritos.
Indícios que contradizem a versão do coronel
Outros pontos que chamaram a atenção incluem o fato de o coronel ter telefonado para a Polícia Militar para pedir socorro apenas 29 minutos após uma vizinha escutar um tiro. Ele havia dito que tomou banho antes de a mulher atirar, mas quando socorristas chegaram ao imóvel, o encontraram com o corpo seco. Somente após ligar para um desembargador amigo, que foi à residência, é que Geraldo se banhou, desobedecendo orientação de policiais militares no local.
Exames indicaram a presença de sangue de Gisele no box do banheiro e em outros cômodos do apartamento, detectados com o uso de luminol. Após a perícia, três policiais militares mulheres foram limpar o imóvel, levando a Corregedoria da PM a investigar o coronel por abuso de autoridade. Geraldo havia pedido afastamento da corporação após a morte da esposa.
Versão do coronel e contradições
A equipe de reportagem não conseguiu localizar a defesa do coronel para comentar o assunto. Em outras ocasiões, seu advogado alegou que o cliente era inocente. Geraldo disse que a esposa se matou com um disparo na cabeça após uma discussão em que ele pediu o divórcio. Afirmou não ter visto o momento do tiro porque estava tomando banho, e ao ouvir um barulho, encontrou Gisele caída, com a cabeça sangrando e segurando uma arma.
A família da PM discordou da versão de suicídio e passou a desconfiar que ele pudesse ter matado Gisele. Parentes apresentaram à delegacia depoimentos, áudios e prints de mensagens que mostraram que a soldado era vítima de um relacionamento abusivo. Ele a perseguia e a proibia de usar vestidos, salto alto, batom, além de vetar que ela falasse com familiares e fosse sozinha à academia.
Paralelamente, a Polícia Militar instaurou um Inquérito Policial Militar (IPM) após denúncias de ameaças, perseguição e instabilidade emocional na relação, atribuídas ao coronel. As investigações prosseguem, com peritos e investigadores se reunindo para tratar do caso.



