PF desvenda estrutura criminosa com quatro núcleos distintos sob comando de Daniel Vorcaro
A Polícia Federal apresentou nesta quinta-feira detalhes alarmantes sobre a organização criminosa liderada pelo banqueiro Daniel Vorcaro, revelando a existência de quatro núcleos especializados que atuavam de forma coordenada para proteger os interesses do conglomerado financeiro. As investigações, baseadas em extensas interceptações telefônicas e trocas de mensagens, mostram uma estrutura sofisticada que incluía desde monitoramento ilegal até intimidação violenta de críticos.
O núcleo de intimidação e obstrução de justiça
As comunicações interceptadas entre Daniel Vorcaro e Luiz Phillipi Mourão, conhecido como "Sicário", evidenciam o funcionamento do núcleo dedicado à intimidação e obstrução da justiça. Segundo a PF, este grupo constituía o braço armado da organização, responsável por ações violentas e coerção privada. A estrutura, denominada "A Turma", mantinha vigilância constante e buscava obter informações sigilosas através de meios ilícitos.
Os três pilares operacionais da organização
A Polícia Federal detalhou as funções específicas dos três principais integrantes deste núcleo criminoso:
- Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, organizava os pagamentos pelos serviços de monitoramento ilegal, atuando como o gerente financeiro do grupo
- Luiz Phillipi Mourão, o "Sicário", exercia a liderança operacional, coordenando ações de identificação, localização e acompanhamento de pessoas ligadas a investigações ou críticas ao Banco Master
- Marilson Roseno da Silva, policial federal aposentado, utilizava seus contatos profissionais para acessar informações sigilosas e realizava vigilância clandestina de alvos específicos
Acesso ilícito a sistemas de segurança nacionais e internacionais
Um dos aspectos mais preocupantes revelados pela investigação é a capacidade do grupo em acessar sistemas restritos de órgãos públicos e até organismos internacionais. Luiz Phillipi Mourão realizava consultas e extrações de dados em bancos de informações protegidos, utilizando credenciais funcionais de terceiros para burlar os controles de segurança.
Segundo a PF, o grupo conseguiu acesso indevido aos sistemas da própria Polícia Federal, do Ministério Público Federal e, de forma ainda mais alarmante, de organismos internacionais como o FBI e a Interpol. Esta capacidade permitia ao grupo obter informações privilegiadas sobre investigações em andamento e sobre indivíduos que representavam ameaças aos interesses do conglomerado financeiro.
Campanha sistemática de intimidação e remoção de conteúdos
Além do acesso a informações sigilosas, o núcleo criminoso atuava ativamente para remover conteúdos e perfis em plataformas digitais. Esta atuação envolvia o envio de comunicações institucionais falsas ou documentos sem validação formal, com o objetivo específico de obter dados de usuários ou promover a retirada de materiais considerados prejudiciais.
As mensagens interceptadas mostram conversas explícitas entre Vorcaro e Mourão sobre a intimidação de funcionários. Em uma comunicação, Vorcaro determina expressamente a Mourão para "levantar tudo dos dois", referindo-se a um funcionário e um chef de cozinha associados. O banqueiro chega a mencionar: "O bom de dar sacode no chef de cozinha primeiro. O outro já vai assustar".
Em outra troca de mensagens, Vorcaro se refere a uma funcionária como "vagabunda" que estaria ameaçando-o, ordenando a Mourão que obtivesse seu endereço e todas as informações possíveis. A resposta do "Sicário" foi direta: "O que é para fazer?", demonstrando a disposição para executar as ordens recebidas.
Remuneração milionária por serviços ilícitos
De acordo com a decisão do ministro André Mendonça, existem fortes indícios de que Luiz Phillipi Mourão recebia R$ 1 milhão por mês de Daniel Vorcaro através de Fabiano Zettel como remuneração pelos serviços ilícitos prestados. Os pagamentos eram realizados por meio de uma empresa de empreendimentos imobiliários, criando uma aparência de legalidade para as transações.
As mensagens interceptadas revelam detalhes sobre a distribuição destes recursos. Quando questionado por Vorcaro sobre os valores exatos, Mourão explica: "Ele manda o mensal e eu divido entre a turma. Mando para eles 400 divido entre seis. Os meninos mando 75 para cada, o meu. O DCM e mais dois editores. É este o mensal". Esta descrição detalhada mostra a estrutura hierárquica de pagamentos dentro da organização criminosa.
As defesas apresentadas pelos investigados
A assessoria de imprensa de Daniel Vorcaro emitiu nota afirmando que o banqueiro jamais teve intenção de intimidar jornalistas e que as mensagens foram tiradas de contexto. A defesa sustentou que Vorcaro nunca determinou agressões ou qualquer tipo de violência, buscando minimizar a gravidade das comunicações interceptadas.
Os advogados de Fabiano Zettel declararam que seu cliente está à disposição das autoridades para esclarecimentos, enquanto a defesa de Henrique Vorcaro, pai de Daniel, afirmou que ele desconhece completamente a conta bancária e os valores citados pela Polícia Federal. A reportagem não conseguiu estabelecer contato com vários outros nomes mencionados na investigação, incluindo Paulo Sérgio Neves de Souza, Belline Santana e Marilson Roseno da Silva.
A descoberta destes quatro núcleos criminosos representa um marco significativo nas investigações sobre as atividades ilícitas ligadas ao Banco Master, revelando uma organização complexa que operava em múltiplas frentes para proteger os interesses do conglomerado financeiro através de métodos ilegais e violentos.



