Em uma ação penal que resultou na condenação de cinco réus por envolvimento com o Primeiro Comando da Capital (PCC) na região central de São Paulo, dois depoimentos de ex-integrantes da facção criminosa que atuaram na Cracolândia chamaram a atenção e foram utilizados pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), braço do Ministério Público de São Paulo (MP-SP), para ampliar as investigações.
Depoimento de Alpha
Identificada como Alpha, a testemunha afirmou que os hotéis próximos à Cracolândia eram marcados por prostituição, tráfico de drogas e furtos, constituindo um submundo do crime que incluía até mesmo a ocultação de vítimas. "Os hotéis ali existentes serviam para a lavagem de dinheiro, para o ocultamento de vítimas e também para o armazenamento de drogas. Não se tratava de área destinada à moradia familiar, mas de um ambiente hostil, no qual inclusive ocorria prostituição infantil. Naquele local eram realizados julgamentos pelo chamado 'tribunal do crime'. Os hotéis serviam exclusivamente para essas finalidades, não havendo outra destinação", declarou a testemunha, cujo nome não foi revelado por questões de segurança.
Alpha também disse ter chegado à Cracolândia em 2010 para guardar drogas nos hotéis da região. Com o tempo, "subiu de nível", passando a transportar entorpecentes e, posteriormente, a atuar diretamente na área. Foi presa em 2020. Atuou nos hotéis entre 2015 e 2020, esclarecendo que esses estabelecimentos não possuíam nomes formais, sendo identificados por denominações atribuídas pela própria organização criminosa, conforme trecho da sentença de 45 páginas proferida pelo juiz Antonio Carlos Martins, da 1ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Dinheiro de Bens e Valores da Capital.
A testemunha acrescentou que, em um dos hotéis, mulheres atuavam no local, mas não com prostituição: "Praticavam assaltos e levavam os objetos subtraídos para o hotel". A infiltração do PCC, segundo Alpha, ocorria em diversos pontos dos hotéis, como na portaria. Havia áreas onde os frequentadores eram proibidos de permanecer. "As hospedagens eram feitas por diária ou por hora. Alguns porteiros eram integrantes da organização criminosa, enquanto outros não. Parte dos hotéis era utilizada para lavagem de dinheiro oriunda do tráfico, funcionando como fachada, além de armazenarem grande quantidade de drogas. Havia andares nos quais usuários não podiam entrar, pois eram destinados exclusivamente à guarda de entorpecentes", diz a sentença.
Hotel das mortes
Outra testemunha, identificada como Beta, ex-integrante da facção que atuou no crime por pelo menos 11 anos, afirmou ter exercido funções de "disciplina geral no Distrito de São Paulo". Em depoimento, disse que "existiam diversos hotéis na região central, alguns próximos entre si, e muitos deles eram utilizados para o tráfico de drogas, prostituição e funcionamento de tribunais do crime".
Beta teve acesso a vários desses locais devido à sua atuação na distribuição de entorpecentes, acompanhando a movimentação por estar próximo ao 'caixa' da organização. Realizava anotações sobre o que era distribuído e o que era pago, embora não tivesse posse direta das drogas, atuando como uma espécie de fiscal. Chegou a São Paulo em 1990. Dois anos depois foi presa e, enquanto estava no cárcere, passou a integrar o PCC. "Após alguns anos, foi expulso da organização por discordar de determinadas práticas. Muitos hotéis funcionavam como pontos de 'queima' de drogas, bem como locais de julgamento e execução, citando como exemplo o hotel do estacionamento, localizado na Rua Dino Bueno, e o denominado Hotel Buraco, onde diversas pessoas teriam sido mortas", diz trecho do depoimento citado na sentença.
Loja FM
Em 2010, ao sair novamente da prisão, Beta recebeu ordens da organização criminosa para abrir uma "loja FM", expressão utilizada entre os criminosos para designar a estrutura de venda de drogas da facção. "Esclareceu que 'FM' significa 'Família', em referência à organização criminosa PCC, termo empregado para identificar biqueiras e pontos de venda vinculados à facção", afirma o documento do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).
Beta então exercia funções de disciplina, chegando a integrar o chamado "geral do centro", grupo composto por oito pessoas, segundo a testemunha, responsáveis pelo "comando regional". Segundo afirmou em juízo, Beta "passou a ser considerada inimiga da facção após discordar de ordens de morte, inclusive envolvendo pessoas com quem possuía vínculo afetivo". Ainda em seu depoimento, Beta disse que "embora os estabelecimentos fossem formalmente hotéis, a maioria dos ocupantes era composta por usuários de drogas, havendo poucos hóspedes legítimos. Muitos usuários 'evoluíam' para criminosos, depois traficantes e, por fim, integrantes da facção. Os hotéis eram divididos por classe social e por tipo de entorpecente comercializado".
Outros réus estão sendo julgados na Justiça por envolvimento com o tráfico no centro de São Paulo. Desde meados de 2024, o governo de São Paulo iniciou ações na região para coibir o tráfico de drogas, com o fechamento dos hotéis e o fim de uma favela na região central. "A Favela do Moinho era o coração do abastecimento de drogas. Ao desmobilizá-la, quebramos o eixo que sustentava o fluxo", afirmou o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), no final de 2025.



