Quinze anos após seu assassinato, um achado inesperado em solo português reacende os questionamentos sobre um dos crimes mais emblemáticos da história recente do Brasil. Um passaporte válido em nome de Eliza Samudio foi localizado em um apartamento alugado em Portugal e entregue às autoridades consulares brasileiras.
O Achado Inesperado e a Autenticidade do Documento
No final de 2025, um passaporte brasileiro foi encontrado de forma casual por um morador identificado apenas como José. O documento estava guardado entre livros em uma estante de um imóvel compartilhado em Portugal, onde ele vive com a família e outros inquilinos. Após o achado, o passaporte foi entregue pessoalmente, nesta segunda-feira, 5 de janeiro de 2026, ao Consulado-Geral do Brasil em Lisboa.
O órgão confirmou a autenticidade do documento. Trata-se de um passaporte legítimo, emitido em 9 de maio de 2006 e com validade até 8 de maio de 2011. As autoridades verificaram que não há registro de emissão de segunda via. O documento, que está em bom estado de conservação, apresenta apenas um carimbo de entrada em Portugal, datado de 5 de maio de 2007.
O Enigma da Trajetória do Passaporte
Um detalhe crucial chama a atenção dos investigadores: não existe qualquer anotação de saída de Portugal ou de ingresso posterior em outro país no passaporte. Este fato é considerado estranho, pois há registros públicos, imagens e testemunhos que comprovam a presença de Eliza Samudio no Brasil após maio de 2007. O crime pelo qual ela é vítima ocorreu integralmente em território brasileiro, e seu corpo jamais foi localizado.
O reaparecimento do documento fora do Brasil e a ausência de movimentações migratórias registradas após 2007 levantam novas interrogações. Quem teria circulado com o passaporte de uma pessoa oficialmente dada como morta?, questionou o morador que fez a descoberta, em declaração que resume o estranhamento em torno do caso.
José preferiu não apontar responsáveis nem expor a proprietária do apartamento, afirmando que cabe às autoridades esclarecer os fatos. Ele também demonstrou preocupação com o impacto da revelação sobre a família de Eliza, especialmente sua mãe, Sônia Moura, e seu filho, Bruninho.
Repercussões e um Caso que Não se Encerra
Em nota oficial, o consulado brasileiro em Lisboa informou que o caso já foi comunicado ao Itamaraty, em Brasília, e que aguarda orientações sobre os próximos passos. O órgão reforçou que consulado e embaixada atuam de forma independente em Portugal.
Apesar de quatro pessoas terem confessado envolvimento direto ou indireto no sequestro e na morte da jovem modelo, o surgimento do passaporte alimenta dúvidas que nunca foram totalmente dissipadas. Para o descobridor do documento, a simples existência dele fora do país reabre debates que pareciam encerrados.
A reportagem tentou contato com Sônia Moura para comentar o caso, mas não obteve retorno até a publicação desta matéria.
O assassinato de Eliza Samudio, ocorrido em 2010, chocou o país e expôs brutalmente a violência contra a mulher. À época, o crime ainda não era enquadrado de forma autônoma como feminicídio na legislação brasileira. Dados do Conselho Nacional de Justiça, divulgados em outubro de 2025, mostram a dimensão contínua do problema: atualmente, uma mulher é vítima de feminicídio no Brasil a cada 44 minutos.