Operação prende nove pessoas por corrupção policial em São Paulo
Nove indivíduos foram detidos nesta quinta-feira (5) durante uma ação coordenada pelo Ministério Público de São Paulo em parceria com a Polícia Federal e a Corregedoria Geral da Polícia Civil. Entre os presos, destacam-se quatro policiais civis acusados de integrar uma organização criminosa dedicada à corrupção e lavagem de dinheiro, que supostamente se infiltrou em setores cruciais da corporação.
Quem são os presos e suas funções
Os policiais civis detidos incluem os investigadores Roldnei Eduardo dos Reis Baptista, da 1ª Delegacia de Combate à Corrupção, e Rogério Coichev Teixeira, do Serviço Aerotático. Também foram presos o escrivão Ciro Borges Magalhães Ferraz e o delegado João Eduardo da Silva, ambos lotados na Delegacia do Jabaquara. Todos foram encaminhados à Corregedoria da Polícia Civil para procedimentos disciplinares.
Além dos agentes, a operação resultou na prisão da doleira Meire Poza, já conhecida por seu envolvimento na Operação Lava Jato, que é apontada como responsável pela contabilidade do grupo. Poza foi levada para a sede da Polícia Federal. Outros quatro indivíduos também foram detidos: os advogados Antônio Carlos Ubaldo Júnior e Marlon Antônio Fontana, além de Cléber Azevedo dos Santos e Robson Martins de Souza. Segundo o Ministério Público, todos são suspeitos de participar do esquema de corrupção em departamentos estratégicos da Polícia Civil paulista.
Como funcionava o esquema criminoso
O juiz Paulo Fernando Deroma de Mello autorizou as medidas cautelares, incluindo prisões preventivas, mandados de busca e apreensão, e bloqueio de bens. Em sua decisão, ele descreveu que o grupo transformou delegacias especializadas em centros de negociação para garantir impunidade a criminosos. O modus operandi envolvia:
- Solicitação de relatórios de inteligência financeira (RIFs) sobre potenciais alvos para cobrança de propina.
- Intimações e exigências de pagamento para interromper investigações.
- Colaboração de doleiros, como Meire Poza e Leonardo Meirelles, que ofereciam propinas para paralisar trabalhos policiais.
- Destruição de provas, como a substituição de HDs apreendidos por dispositivos vazios.
Áudios e mensagens apreendidos citam propinas de até R$ 33 milhões para que policiais encerrassem investigações. A organização utilizava métodos sofisticados para ocultar recursos ilícitos, incluindo empresas de fachada e simulações de operações de importação. Um dos métodos centrais era a conversão de dinheiro em espécie em créditos de vales-refeição por meio de estabelecimentos comerciais fictícios.
Corrupção em departamentos de elite
O documento judicial detalha episódios de corrupção no Departamento de Investigações Criminais (Deic) e no Departamento de Polícia de Proteção à Cidadania (DPPC). Em um caso, investigados teriam acessado as dependências do DPPC para substituir um HD apreendido por um dispositivo sem informações incriminatórias. Pagamentos de propina ocorreram no hangar do Serviço Aerotático da Polícia Civil, no Campo de Marte, e extorsões foram conduzidas no 16º Distrito Policial (Vila Clementino). Em um episódio, policiais exigiram R$ 5 milhões para não prosseguir com um inquérito.
No total, a Justiça decretou a prisão de 11 investigados e autorizou 23 mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos suspeitos, incluindo residências, escritórios de advocacia e sedes de delegacias como DPPC, DEIC e 16º DP.
Origem das investigações e desdobramentos
A operação atual é um desdobramento da Operação Recidere, deflagrada em 2023 contra um esquema bilionário de envio de dinheiro ilícito ao exterior. Na época, identificou-se que operadores movimentaram R$ 4 bilhões em dois anos por meio de contas bancárias de empresas de fachada. O doleiro Leonardo Meirelles, principal alvo da Recidere, também é procurado nesta nova ação.
Análises de aparelhos celulares apreendidos revelaram que um grupo de operadores financeiros estava envolvido em um grave esquema de corrupção com policiais civis de São Paulo, que recebiam propinas para obstruir investigações. Isso levou à Operação Fractal, que expôs lavagem de dinheiro com uso de empresas de fachada e compra de criptomoedas para dificultar rastreio. Diálogos obtidos indicam corrupção sistêmica no DPPC durante a Fractal, resultando na frustração de investigações e blindagem de criminosos.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública afirmou que a Corregedoria da Polícia Civil participa da operação e que "a Polícia Civil não compactua com desvios de conduta por parte de seus integrantes e adotará todas as medidas legais e disciplinares cabíveis caso sejam confirmadas quaisquer irregularidades".
