Médium é investigado por desviar milhões de reais de sogros idosos com conselhos espirituais
Um caso de estelionato envolvendo um médium está sob investigação da Delegacia de Proteção ao Idoso de Fortaleza, da Polícia Civil. O suspeito, identificado pelas iniciais F. G., é acusado de usar sua influência como chefe de um centro espírita para desviar milhões de reais de seus sogros, um casal de idosos com mais de 80 anos, proprietários de uma empresa no mercado imobiliário.
Denúncia apresentada pelas filhas do casal
A denúncia foi apresentada à polícia por três das quatro filhas do casal. Segundo elas, F. G., que é marido da quarta filha, teria orientado a mãe, de 85 anos, a doar R$ 1,4 milhão a sete pessoas de uma mesma família, sob alegação de que espíritos incorporados por ele pediram ajuda financeira. Além disso, as filhas relatam o sumiço de mais de R$ 5 milhões da previdência da mãe, em diversas transações ao longo de meses.
Em depoimento à polícia, a idosa afirmou que fez as doações conscientemente, após F. G. contar que as pessoas passavam por dificuldades financeiras e doenças. No entanto, F. G. negou ter influenciado as doações, alegando que as mensagens espirituais eram de cunho positivo e incentivavam a caridade.
Vínculo familiar e controle financeiro
F. G. é casado com a filha mais velha do casal desde 2007, com comunhão total de bens, e atuava como assessor financeiro e espiritual dos sogros. Ele morava em um apartamento acima do imóvel dos idosos na Avenida Beira-Mar e, segundo a denúncia, tinha acesso às contas bancárias da sogra por meio de aplicativos, além de senhas de cartões de crédito.
As filhas acusam F. G. de ter afastado elas dos pais, que chegaram a dispensar duas delas da empresa familiar. Uma medida protetiva da Justiça impede F. G. de se aproximar dos sogros, mas ele ainda mantém contato por meio de celulares de funcionárias domésticas.
Envolvimento espiritual e uso de ayahuasca
O casal de idosos frequentava o centro espírita de F. G. há mais de duas décadas e fazia uso do chá alucinógeno ayahuasca, conhecido como Santo Daime, sob orientação do médium. Testemunhas relataram que F. G. alegava incorporar espíritos de personalidades famosas, como Napoleão Bonaparte, Princesa Isabel, Leonardo Da Vinci e Ayrton Senna, para dar conselhos.
Os templos espíritas foram construídos em terrenos doados pelos sogros, e F. G. não possuía renda fixa, recebendo comissões de vendas da empresa com base em suas orientações espirituais.
Investigação em andamento
A Polícia Civil indiciou F. G. em agosto de 2025, e o caso seguiu para o Ministério Público do Ceará, que solicitou mais investigações. O processo está em sigilo, e o MP afirmou que está analisando novas informações para se manifestar dentro do prazo legal.
As filhas do casal também relatam mudanças no comportamento da mãe, que passou a ser hostil em relação a elas nos últimos anos, acusando uma delas de tentativa de envenenamento e desvio de dinheiro. O pai, diagnosticado com Alzheimer em 2018, não consegue mais realizar atividades diárias por conta própria.
