Falso médico preso em Cananéia: cinco mulheres buscam indenização por danos morais
O empresário Wellington Augusto Mazini Silva, preso em 7 de janeiro por se passar por médico em um hospital de Cananéia, no litoral sul de São Paulo, agora enfrenta uma ação cível movida por cinco mulheres que foram suas vítimas. Elas ingressaram na Justiça pedindo uma indenização coletiva de R$ 250 mil, o que equivale a R$ 50 mil para cada uma, por danos morais decorrentes dos exames de ultrassom transvaginal realizados pelo suposto profissional.
Detalhes do caso e ação judicial
Mazini foi detido após utilizar indevidamente o CRM (Conselho Regional de Medicina) de um médico, que era seu sócio em uma clínica na capital paulista, para realizar atendimentos e exames no hospital de Cananéia. Ele alegou ter agido sob ordens do profissional legítimo e que receberia R$ 2 mil pelo serviço prestado. O Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp) abriu uma sindicância para investigar o caso com profundidade.
As cinco mulheres, representadas pelo advogado Bruno Ribeiro de Almeida, moveram a ação contra Mazini, a Irmandade Boituva Saúde (empresa responsável pela gestão da saúde municipal) e a Prefeitura de Cananéia. Na petição judicial, consta que o suspeito realizou exames de ultrassom transvaginal nas pacientes, o que, segundo o advogado, resultou em "extrema exposição e vulnerabilidade", com a intimidade das vítimas sendo indevidamente violada.
"A exposição indevida de seu corpo em contexto médico, mediante fraude, gerou intenso constrangimento e sofrimento psíquico", destacou Almeida em sua argumentação. Ele ainda ressaltou a omissão na fiscalização por parte da empresa gestora e do município, acusando-os de negligência. A ação foi protocolada de forma solidária, permitindo que qualquer um dos réus possa pagar o valor integral da indenização e, posteriormente, cobrar a parte devida dos outros envolvidos.
Respostas das defesas e medidas municipais
O advogado Celino Barbosa Netto, que representa Mazini, informou ao g1 que a defesa ainda não foi formalmente citada sobre as ações cíveis. "Meu cliente sequer foi citado ainda na esfera criminal e os fatos narrados nas ações cíveis dependem inexoravelmente da decisão da ação penal", afirmou ele, indicando que o processo está em fase inicial.
Em nota oficial, a Prefeitura de Cananéia declarou que adotou imediatamente todas as providências necessárias para assegurar a integridade dos serviços de saúde e prevenir novos incidentes. Entre as medidas implementadas, está a padronização obrigatória de crachás de identificação para todos os profissionais médicos, contendo fotografia e número de CRM, além da criação de um arquivo permanente para conferência junto ao Conselho de Classe, com dados cadastrais atualizados.
"Esse acervo ficará sob responsabilidade da coordenação da empresa gestora do Pronto-Socorro, permanecendo disponível para consulta sempre que necessário, como forma de garantir a regularidade profissional, a segurança dos atendimentos e a confiança da população", explicou a prefeitura em comunicado.
Histórico de denúncias e situação criminal
Investigções do g1 revelaram que Mazini já havia sido acusado de crimes semelhantes quatro meses antes, em Santo Amaro, na Grande São Paulo. Em setembro de 2025, um empresário o denunciou, juntamente com familiares, por associação criminosa, estelionato, falsidade ideológica e apropriação indébita. Naquela ocasião, ele teria se passado pelo mesmo médico cujo CRM foi usado em Cananéia, realizando ao menos dez atendimentos, incluindo ultrassonografias de próstata, vias urinárias e abdome total, colocando em risco a saúde dos pacientes.
O Ministério Público denunciou Mazini por estelionato, exercício ilegal da medicina, falsidade material e perigo para a vida, com penas que podem chegar a 13 anos de prisão. A defesa classificou a acusação como "inflada" e juridicamente controversa, mas o Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) negou, em 13 de janeiro, um habeas corpus que pedia sua soltura. Os desembargadores entenderam que há indícios suficientes de autoria e materialidade dos crimes, e que sua liberdade representaria um risco à sociedade.
O advogado de Mazini argumentou que a prisão causa "estigmatização social, abalo psicológico e prejuízo irreversível à sua trajetória educacional e profissional", solicitando medidas cautelares alternativas, mas o pedido foi rejeitado. O caso continua sob análise judicial, com investigações em andamento tanto na esfera criminal quanto na cível.
