Empresária é absolvida após julgamento histórico em Ribeirão Preto
A empresária Aline Fernanda Maschietto, de 41 anos, foi absolvida pelo júri popular da acusação de tentativa de homicídio contra seu então namorado, o médico Diego Lima Tierbach. O veredicto ocorreu na quinta-feira (16), no Fórum de Ribeirão Preto, interior de São Paulo, após um julgamento que se estendeu por mais de nove horas intensas.
Alívio e declaração de inocência
Após a decisão unânime, Aline expressou profundo alívio e gratidão. "Sempre acreditei que eu conseguiria provar minha inocência, cedo ou tarde, e agora eu sou uma pessoa livre", declarou emocionada. "Finalmente a justiça foi feita, e eu estou livre e isso não tem preço", completou a empresária, que enfrentou anos de processo criminal.
O corpo de jurados, composto por cinco mulheres e dois homens, ouviu atentamente os depoimentos e as alegações antes de deliberar. Tanto Aline quanto Diego responderam a perguntas diretas dos jurados durante o longo processo. A Promotoria de Justiça, que conduziu a acusação, deixou o fórum sem fazer comentários sobre a decisão, enquanto o médico também se retirou sem conceder entrevistas.
Os detalhes do caso de 2022
O incidente ocorreu em março de 2022, quando Aline residia em um flat na zona Leste de Ribeirão Preto. Durante um encontro com Diego, então estudante de medicina, uma violenta briga eclodiu entre o casal. Segundo as investigações do Ministério Público, a motivação teria sido ciúmes, após a contratação de uma garota de programa para participar do encontro.
Diego foi esfaqueado nas costas e nos braços, sofrendo lesões graves que o levaram a ficar internado na Unidade de Terapia Intensiva por cinco dias. A perícia médica concluiu que as feridas ofereciam risco real de morte à vítima.
Versões contraditórias e defesa
A acusação sustentou que Aline agiu com intenção homicida, atacando Diego sem dar-lhe chance de defesa. No entanto, a defesa apresentou uma versão completamente diferente dos fatos. A advogada Tamara Maria Bessa de Castro afirmou que sua cliente agiu em legítima defesa contra agressões do médico.
"A nossa busca sempre foi pela absolvição da Aline para que ela pudesse sair daqui do fórum de cabeça erguida, sem esse peso nas costas, com a consciência tranquila", declarou a defensora.
Aline relatou à polícia que Diego a ameaçou com uma faca durante a discussão, e que ela apenas reagiu para se proteger. Segundo seu depoimento, o médico teria jogado as chaves do apartamento pela janela, impedindo sua saída.
Testemunha crucial e prisão internacional
Um funcionário do flat que atendeu à ocorrência prestou depoimento crucial durante o julgamento. Ele contou que ouviu gritos vindos do apartamento e que outros hóspedes reclamaram do barulho. Ao chegar ao local, disse que iria arrombar a porta e ouviu Diego gritar: 'arromba, porque ela vai me matar'.
Quando conseguiu entrar, o funcionário encontrou Diego segurando Aline pelos braços, em aparente tentativa de defesa. Duas facas ensanguentadas foram encontradas no chão do quarto.
O caso ganhou dimensão internacional quando Aline foi presa na Espanha no final de 2023, após ser incluída na lista de procurados da Interpol pelas autoridades brasileiras. Na Europa, ela havia acusado de estupro o advogado Cándido Conde-Pumpido Varela, filho do presidente do principal órgão de Justiça espanhol, mas retirou a queixa dias depois.
Com a repercussão midiática, descobriu-se que ela era procurada no Brasil. Em junho de 2024, Aline foi extraditada da Espanha, presa ao chegar ao país, mas obteve habeas corpus para aguardar o julgamento em liberdade.
Desfecho jurídico e consequências
A absolvição representa o ponto final de um processo judicial que se arrastou por mais de dois anos, envolvendo:
- Denúncia de tentativa de homicídio qualificado aceita pela Justiça em julho de 2022
- Mandado de prisão expedido contra Aline
- Período como foragida das autoridades
- Prisão internacional e processo de extradição
- Julgamento pelo tribunal do júri com duração recorde
O policial militar que atendeu a ocorrência inicial em 2022 também foi ouvido como testemunha durante o julgamento, reforçando a complexidade do caso que dividiu opiniões e exigiu minuciosa análise dos jurados.
Com a absolvição, Aline Fernanda Maschietto encerra um capítulo turbulento de sua vida, enquanto o caso deixa questionamentos sobre violência doméstica, legítima defesa e a complexidade das relações humanas que chegam aos tribunais.



