Condenados por morte de advogado são investigados por outras execuções ligadas a grupos criminosos
Os três homens condenados pela morte do advogado Rodrigo Marinho Crespo, ocorrida em fevereiro de 2024 no Centro do Rio de Janeiro, também são investigados pela participação em outras execuções atribuídas a grupos de extermínio vinculados a milícias, ao jogo do bicho e à máfia do cigarro. Os crimes aconteceram entre 2021 e 2024 nos municípios de Duque de Caxias e Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, e em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio.
Mandante apontado em múltiplos homicídios
De acordo com investigações da Polícia Civil e do Ministério Público, pelo menos dois desses homicídios teriam como mandante o bicheiro Adilson Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho. Ele também é apontado como suspeito de ordenar a morte do advogado Rodrigo Crespo. Após dois dias de júri popular, na sexta-feira (6), a Justiça condenou os três réus a 30 anos de prisão cada um.
Foram sentenciados:
- Leandro Machado da Silva: 30 anos de prisão
- Cezar Daniel Mondego: 30 anos de prisão
- Eduardo Sobreira de Moraes: 30 anos de prisão
Acusações detalhadas e papel dos réus
As acusações são de homicídio triplamente qualificado e concurso de pessoas, com agravantes de emboscada, recurso que dificultou a defesa da vítima, motivo torpe, uso de arma de fogo de uso restrito e vantagem para a organização criminosa. No júri, também foi decretada a perda do cargo do policial militar Leandro Machado, que, segundo as investigações, alugou os carros utilizados no crime.
De acordo com o Ministério Público, Machado era o chefe dos outros dois réus na empreitada criminosa. Já Mondego e Sobreira participaram do monitoramento direto da vítima, seguindo seu caminho entre a casa de Rodrigo Crespo, na Lagoa, e o trabalho, na avenida Marechal Câmara, onde foi morto. As defesas dos três condenados anunciaram que vão recorrer da decisão.
Outros crimes investigados
Durante o júri popular de Rodrigo Crespo, o Ministério Público lembrou que Leandro Machado da Silva, Eduardo Sobreira e Cézar Daniel Mondego foram indiciados pela Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí por monitorarem outra vítima antes da execução: Thiago Trigueiro Gomes, morto em janeiro de 2024. Pelo mesmo crime, também foi indiciado Ryan Patrick Barboza de Oliveira, que participou do monitoramento de Rodrigo Crespo antes de sua morte.
Ryan foi preso por ter participado de outro crime ligado à organização criminosa: o assassinato do dono do bar Parada Obrigatória, Antônio Gaspaziane Mesquita Chaves. A investigação aponta para mais um homicídio ligado à atuação da máfia dos cigarros, com o motivo sendo que Thiago estaria vendendo o "cigarro errado".
Execução ligada à máfia do cigarro
No dia 15 de junho de 2022, o empresário Tiago Barbosa, conhecido como Tiago da X6, foi morto com mais de 80 tiros disparados contra seu veículo na Via Light esquina com Motel Vênus, no Bairro da Luz, em Nova Iguaçu. Indícios de monitoramento de Tiago foram encontrados no celular de Eduardo Sobreira, e o crime está ligado à atuação da máfia do cigarro ilegal comandada por Adilsinho.
Um fuzil AK-47 utilizado para executar Tiago Barbosa teve confronto balístico idêntico ao de outros cinco crimes, incluindo o assassinato do policial penal Bruno Kilier e a tentativa de assassinato de Luiz Henrique de Souza Waddington, filho de um bicheiro.
Vereador assassinado em Duque de Caxias
No dia 10 de março de 2021, o vereador Danilo Francisco da Silva, conhecido como Danilo do Mercado, e seu filho, Gabriel Francisco Gomes da Silva, foram assassinados no bairro Jardim Primavera, em Duque de Caxias. Segundo o Ministério Público, o crime está ligado à disputa por poder político e econômico no município, além de negócios ilícitos e conflitos fundiários.
Leandro Machado da Silva, preso e condenado pela morte de Crespo, é apontado como um dos executores de Danilo e Gabriel. Além dele, outros dois policiais militares foram denunciados por participarem do crime, com um deles, Uanderson Costa de Souza, atualmente foragido.
Posicionamento das defesas
A defesa de Leandro Machado afirmou que analisa o teor das novas acusações, destacando que "o Direito Penal não admite a condenação por 'conjunto da obra'. Cada processo exige provas autônomas e concretas", conforme declarou o advogado Diogo Macruz.
A defesa de Adilsinho negou todas as acusações, afirmando que "o empresário Adilson Oliveira Coutinho Filho nega qualquer envolvimento com a comercialização de cigarros irregulares e homicídios" e que atua exclusivamente de forma lícita. A defesa de Cezar Daniel Mondego foi procurada, mas não respondeu até a publicação desta reportagem.
