Advogado é investigado por manipular imagem com IA em julgamento da Chacina do Curió
A Polícia Civil do Ceará está investigando um advogado por supostamente utilizar inteligência artificial para manipular uma imagem de câmera de segurança e apresentá-la como prova durante o julgamento do caso conhecido como Chacina do Curió. O episódio, que resultou na morte de 11 pessoas na periferia de Fortaleza em 2015, já levou à condenação de oito policiais militares, enquanto outros 21 foram absolvidos.
Investigação por fraude processual
Conforme documentos obtidos, a investigação foi aberta após pedido do Ministério Público do Ceará em outubro de 2025 para apurar o cometimento do crime de fraude processual. A Perícia Forense do Ceará identificou "grandes divergências" entre a imagem apresentada pelo advogado e a original, levantando suspeitas de adulteração.
O g1 optou por não divulgar o nome do advogado, que ainda está sob investigação sem indiciamento, nem o do policial militar que ele representava. A Polícia Civil não se manifestou sobre o andamento das investigações, enquanto o Ministério Público aguarda a distribuição dos autos pela Justiça para se pronunciar.
Como ocorreu a suposta fraude
Segundo o Ministério Público, o advogado anexou aos autos do processo, três dias antes do julgamento, "uma fotografia distorcida e com vestígios de edições" baseada em laudo pericial de 2016. Originalmente, o laudo concluía que o vídeo apresentava fatores de degradação irreversíveis, como pixelização e ruído elevado.
Porém, a imagem apresentada pelo advogado teria nitidez e qualidade superiores, sugerindo que o veículo envolvido seria da marca Chevrolet, e não Toyota como indicado anteriormente. Durante a tréplica do julgamento, o advogado teria afirmado que utilizou o Gemini, uma ferramenta de inteligência artificial, com o comando "deixar realista e descrever com a máxima realidade as características do veículo".
Análise pericial revela adulteração
A Pefoce, ao sobrepor as imagens, constatou divergências significativas na posição, dimensão, faróis, logomarca e rodas dos veículos. Os peritos destacaram que procedimentos de tratamento de imagem não devem alterar a posição dos pixels, apenas ressaltar informações já contidas, indicando forte indício de adulteração.
Resultados dos julgamentos da Chacina do Curió
Cinco julgamentos já foram realizados na Justiça do Ceará sobre o caso, com um total de 29 réus, todos policiais militares:
- Primeiro julgamento (junho de 2023): Quatro PMs condenados a penas que totalizam 238 anos e 11 meses de prisão após recurso.
- Segundo julgamento (agosto de 2023): Oito PMs absolvidos após nove dias de sessão.
- Terceiro julgamento (setembro de 2023): Dois PMs condenados (210 anos e 9 meses, e 13 anos e 5 meses) e cinco absolvidos.
- Quarto julgamento (agosto de 2025): Sete PMs absolvidos após seis dias de julgamento.
- Quinto julgamento (setembro de 2025): Dois PMs condenados a 315 anos e 275 anos de reclusão, com perda do cargo público.
As sessões judiciais ultrapassaram 330 horas de duração, marcando um dos processos mais longos e complexos da história jurídica cearense. O movimento Mães do Curió continua atuante, realizando atos em memória das vítimas e cobrando justiça.



