Justiça do Rio permite retorno de advogada argentina após ofensas racistas em Ipanema
Advogada argentina pode voltar ao país após ofensas racistas

Justiça do Rio autoriza retorno de advogada argentina ao país após caso de injúria racial

A advogada argentina Agostina Páres, ré em processo por injúria racial, depositou o valor determinado pela Justiça do Rio de Janeiro para retornar à Argentina enquanto continua respondendo judicialmente pelo caso. A decisão da Oitava Câmara do Tribunal de Justiça, expedida nesta segunda-feira (30), estabeleceu condições específicas para sua liberação, incluindo o pagamento de uma caução equivalente a 60 salários mínimos, aproximadamente R$ 97 mil.

Detalhes do processo e medidas judiciais

A liminar foi concedida pelo desembargador Luciano Silva Barreto, relator do caso na Oitava Câmara Criminal do Tribunal de Justiça fluminense. A decisão, que ainda será submetida ao colegiado, determina que o valor servirá como garantia para o eventual cumprimento de pena e reparação de danos no Brasil. Segundo a denúncia do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ), os fatos ocorreram no dia 14 de janeiro deste ano, quando Agostina, em um bar de Ipanema, dirigiu-se a um funcionário utilizando o termo "negro" de forma pejorativa.

Ao deixar o estabelecimento, a advogada empregou a palavra "mono", que em espanhol significa "macaco", acompanhada da imitação de gestos do animal, cenas registradas em vídeo que posteriormente viralizaram. A promotoria acrescenta que ela retornou para proferir novas ofensas, incluindo expressões como "negros de m*rda" e "monos" direcionadas a outros dois funcionários, configurando assim três crimes de injúria racial.

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Evolução das medidas cautelares

Inicialmente, a acusada foi presa e submetida a diversas medidas restritivas, como a retenção do passaporte, proibição de sair do país e uso de tornozeleira eletrônica. Contudo, o relator do caso considerou que, com o encerramento da fase de instrução processual, não mais se justificava a manutenção dessas restrições. O magistrado destacou que tanto o Ministério Público quanto a assistência de acusação manifestaram-se favoravelmente à liberação da ré, desde que houvesse garantia financeira para eventual indenização às vítimas.

"As medidas cautelares devem ser proporcionais e vinculadas à necessidade do processo", afirmou o desembargador, acrescentando que impedir a saída do país após o fim da instrução configuraria constrangimento ilegal. Ele também ressaltou que acordos internacionais entre Brasil e Argentina permitem, em caso de condenação, o cumprimento da pena no país de origem da acusada.

Condições estabelecidas pela Justiça

A decisão judicial estabelece que Agostina Páres poderá retornar à Argentina após o depósito da caução, que servirá como garantia para pagamento de multa e reparação de danos. O Ministério Público havia sugerido indenização de até 120 salários mínimos às vítimas, equivalente a aproximadamente R$ 190 mil. Além do pagamento financeiro, a ré deverá:

  • Manter endereço e contatos atualizados junto à Justiça brasileira
  • Comprometer-se a atender todas as convocações judiciais, mesmo estando fora do país
  • Comunicar-se regularmente com as autoridades brasileiras

Arrependimento e perspectiva da defesa

Durante audiência realizada este mês, Agostina pediu desculpas formalmente aos três funcionários do bar pelos gestos racistas. A defesa argumentou que sua cliente reconhece o erro cometido, atribuindo-o ao desconhecimento da legislação brasileira sobre racismo. "Agostina reconhece que errou e reagiu de forma inadequada diante de uma situação de conflito", afirmou a advogada Carla Junqueira, que representa a acusada.

O magistrado considerou em sua decisão que a acusada é primária, possui profissão definida e demonstrou colaboração com o processo, inclusive com manifestação pública de arrependimento. A promotoria, por sua vez, defendeu que a ré, sem antecedentes criminais e após demonstrar remorso, possa cumprir em seu país natal a pena mínima convertida em prestação de serviços comunitários.

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Contexto do caso e posicionamento institucional

O vídeo com os gestos ofensivos viralizou nas redes sociais e deu início à investigação da Polícia Civil, que indiciou Agostina por injúria racial. A prisão preventiva foi decretada após a 37ª Vara Criminal aceitar a denúncia do MPRJ, baseada no risco de fuga e no comportamento reiterado da advogada, que teria repetido as ofensas mesmo após ser alertada sobre a criminalidade da conduta no Brasil.

A promotora Fabíola Tardin Costa explicou que o foco do Ministério Público está mais voltado para a reparação do dano às vítimas e para o respeito à legislação brasileira do que propriamente para o encarceramento. "Nosso país está comprometido com o combate ao racismo e com o respeito aos tratados internacionais", afirmou, destacando que o cárcere representa uma medida extrema que não se mostra necessária no momento.

Com a revogação de todas as medidas cautelares anteriormente impostas, condicionada ao pagamento da caução e à manutenção da comunicação com a Justiça brasileira, Agostina Páez, de 29 anos, que está há dois meses no Rio sem renda fixa e relatou ter recebido ameaças, aguarda agora a definição da sentença final do processo, que deve ocorrer nos próximos dias.