MPRJ denuncia 10 PMs do Bope por invasão de casas e consumo de alimentos de moradores na Maré
10 PMs do Bope denunciados por invasão e consumo de alimentos na Maré

MPRJ denuncia 10 policiais do Bope por invasões e conduta irregular na Maré

O Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) apresentou denúncia contra 10 policiais militares do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), a tropa de elite da corporação, por crimes cometidos durante uma operação no Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio, em 10 de janeiro de 2025. Os agentes são acusados de violação de domicílio, descumprimento de missão e recusa de obediência, em um caso que expõe graves desvios de conduta.

Invasões clandestinas e uso indevido de propriedades

De acordo com o Grupo de Atuação Especializada em Segurança Pública (Gaesp/MPRJ), os policiais entraram clandestinamente em 13 residências na comunidade Nova Holanda, utilizando em alguns casos chave mestra ou arrombando portas, sem autorização dos moradores e sem ordem judicial. Os agentes não apenas violaram a inviolabilidade dos lares, como também se apropriaram indevidamente dos espaços e pertences dos residentes.

Segundo as investigações, parte dos policiais abandonou a missão de incursão e estabilização para permanecer dentro dos imóveis, onde dormiram, usaram banheiros e consumiram itens das geladeiras dos moradores. Imagens de câmeras corporais capturaram momentos em que um PM abriu a geladeira de uma casa, pegou um guaraná natural e brincou com colegas sobre assistir televisão no local. Em outra residência, um agente foi flagrado sem camisa após usar o banheiro, enquanto outro descansava no sofá com as luzes apagadas por cerca de uma hora e meia.

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Obstrução de câmeras e denúncias formais

As investigações revelaram que os policiais obstruíram deliberadamente as lentes das câmeras operacionais portáteis (COPs), resultando em gravações com "tela preta" que dificultaram o registro das ações. Mesmo assim, o áudio captado e imagens de outras câmeras foram suficientes para que o Gaesp compusesse as denúncias. O promotor Paulo Roberto Mello Cunha destacou a importância das câmeras corporais: "A COP veio mostrar uma realidade que a gente já ouvia há bastante tempo. Escancarou essa realidade que já era denunciada pelos moradores".

O Gaesp apresentou duas denúncias: uma por crimes contra civis, como violação de domicílio, e outra por crimes militares, incluindo descumprimento de missão e recusa de obediência. Entre os denunciados está o cabo Rodrigo da Rocha Pita, apontado como participante de sete episódios de invasão. O Ministério Público ressaltou que não há previsão para o uso de chaves mestras em operações policiais, prática que indica possível predisposição para violação de domicílio.

Reações institucionais e contexto da operação

A Polícia Militar informou que a Corregedoria-Geral da Corporação instaurou procedimento apuratório ao tomar conhecimento dos fatos e encaminhou relatório à Auditoria de Justiça Militar. Em nota, a assessoria da Secretaria de Estado de Polícia Militar afirmou que o comando "reafirma seu compromisso com a legalidade e a transparência" e não compactua com desvios de conduta.

A operação na Maré foi realizada com o objetivo de combater roubos de cargas e veículos e identificar desmanches irregulares na região, contando com equipes do Bope e outras unidades especializadas. O promotor Paulo Roberto Mello Cunha foi enfático ao criticar a conduta dos policiais: "Entrar numa casa e usar como se fosse sua, acessar a geladeira, comer o que tem lá, ir ao banheiro, tirar a camisa, deitar, ligar o ar-condicionado, isso aí é inaceitável, não há nenhuma justificativa para isso".

As denúncias foram encaminhadas à Justiça Militar, que decidirá sobre a aceitação das acusações. Até o momento, não houve imposição de medidas cautelares contra os policiais denunciados. O caso segue em investigação, com o MPRJ destacando a importância do respeito à Constituição, que define o lar como "asilo inviolável do indivíduo".

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