Sala que imita delegacia da PF é achada em centro de golpes asiático na fronteira Tailândia-Camboja
Sala falsa da PF achada em centro de golpes na fronteira Tailândia-Camboja

Sala que imita delegacia da Polícia Federal é descoberta em centro de golpes na fronteira entre Tailândia e Camboja

Uma sala montada para imitar uma delegacia da Polícia Federal do Brasil foi encontrada entre os escombros de um resort na conturbada fronteira entre Tailândia e Camboja. O local, que funcionava como um centro de operações para golpes online, foi abandonado às pressas após confrontos militares entre os dois países no final do ano passado.

Vestígios de uma fuga apressada

Monitores de computador quebrados, uniformes falsos de polícia espalhados, notas falsificadas de cem dólares e diversos cenários montados para simular delegacias policiais de Brasil, Austrália, Canadá e Índia compõem o cenário caótico deixado para trás. Roteiros detalhados para ligações golpistas e pilhas de papéis com números de telefone de potenciais vítimas em todo o mundo foram abandonados no local, evidenciando a sofisticação da operação criminosa.

O sudeste asiático consolidou-se como o epicentro da indústria bilionária de golpes online, onde centenas de milhares de indivíduos – alguns vítimas de tráfico humano, outros trabalhadores voluntários – enganam usuários da internet globalmente através de esquemas de romance falso e investimentos fraudulentos em criptomoedas.

Conflito fronteiriço revela centro criminoso

Nesta quinta-feira (12), o Exército tailandês conduziu jornalistas até a área de O'Smach, no Camboja, capturada durante confrontos na fronteira em dezembro de 2025. A Tailândia afirma que a região era utilizada tanto como base militar cambojana quanto como centro de operações para criminosos que conduziam golpes transnacionais.

Os confrontos, que duraram três semanas, representaram o episódio mais recente de um conflito de longa data entre os países vizinhos. A Tailândia declarou na época que suas forças atingiram vários cassinos do lado cambojano, alegando que serviam como depósitos de armas e posições de disparo.

"Foi por coincidência — o ataque a essas instalações ocorreu porque eram usadas como bases militares pelas forças cambojanas", explicou o porta-voz do Ministério da Defesa da Tailândia, Surasant Kongsiri, durante a visita. Segundo ele, quando as tropas tailandesas avançaram para neutralizar a ameaça, descobriram que as instalações atrás dos cassinos eram centros de golpes online.

Disputa política e acusações mútuas

Desde que uma frágil trégua foi acordada no final de dezembro, o Exército tailandês mantém presença na área, apesar dos repetidos pedidos do Camboja para a retirada das tropas. O ministro da Informação do Camboja, Neth Pheaktra, acusou a Tailândia de tentar justificar sua "anexação de fato" do território cambojano "sob o pretexto de operações contra golpes online".

Em comunicado à AFP, Pheaktra afirmou que "essas ações representam um uso perigoso de narrativas de aplicação da lei para justificar incursões militares". A destruição e os escombros que permanecem em O'Smach mais de dois meses após o fim dos combates indicam uma fuga apressada de milhares de pessoas.

Escala humana da operação criminosa

O Exército tailandês estima que aproximadamente 20 mil supostos golpistas que viviam no local escaparam pouco antes dos mísseis atingirem a área. Analistas ouvidos pela AFP em dezembro sugeriram que O'Smach e outros complexos de cassino atacados poderiam abrigar milhares de vítimas de tráfico humano.

Os locais visitados incluíam alojamentos para golpistas do Vietnã e da Indonésia, além de escritórios para chefes chineses, segundo informações dos militares tailandeses. O complexo ficava em frente ao resort e cassino O'Smach, propriedade do senador e empresário cambojano Ly Yong Phat.

Em 2024, Washington impôs sanções a Ly Yong Phat pelo suposto papel de sua empresa em "graves abusos de direitos humanos relacionados ao tratamento de trabalhadores traficados submetidos a trabalho forçado em centros de golpes online". O empresário negou em novembro reportagens que o vinculavam a redes de crimes cibernéticos e lavagem de dinheiro, classificando as acusações como "falsas e prejudiciais à sua reputação".

Chamado para cooperação internacional

Prapas Sornchaidee, da Força Aérea da Tailândia, destacou que o Camboja – que prometeu eliminar as operações de golpes antes de maio – deveria reconhecer a proliferação dessas atividades e buscar apoio internacional para combatê-las. "Se o Camboja reconhecesse que essas atividades estão ocorrendo e que não consegue controlá-las, e coordenasse com a Tailândia e outros países para enfrentar o problema, seria muito melhor", afirmou.

A descoberta da sala que imita uma delegacia da Polícia Federal brasileira evidencia não apenas a sofisticação dos esquemas criminosos operando na fronteira Tailândia-Camboja, mas também a dimensão transnacional de uma indústria que explora tanto vítimas de tráfico humano quanto usuários da internet em todo o mundo.