Irã recruta crianças para defesa sob ameaça de EUA e Israel, violando leis internacionais
Sob a crescente ameaça dos Estados Unidos e de Israel, o Irã está recorrendo a uma prática condenada internacionalmente: o recrutamento de crianças para funções de defesa. Relatórios preliminares de organizações humanitárias indicam que menores de idade estão sendo utilizados em patrulhas e postos de controle, uma medida que constitui crime de guerra segundo o direito internacional.
Exposição à violência e casos trágicos
Uma das principais razões para a proibição desse recrutamento é a exposição direta das crianças à violência armada. Um exemplo trágico é o de Alireza Jafari, de apenas 11 anos, que faleceu em março enquanto atuava em um posto de controle. De acordo com a Anistia Internacional, seu próprio pai o levou ao local, alegando falta de soldados suficientes para a defesa.
A dimensão exata desse fenômeno ainda é incerta devido a blecautes e censura que dificultam investigações. "Muitos temem falar sobre esse tema, receando sofrer represálias", afirma Bill Van Esveld, diretor da área de direitos da criança na ONG Human Rights Watch (HRW). No entanto, evidências concretas começam a surgir.
Evidências oficiais e redução da idade mínima
Uma das provas mais significativas é um anúncio veiculado pela imprensa estatal iraniana, que reduziu a idade mínima para o alistamento na organização Basij de 15 para 12 anos. O comunicado foi feito por Rahim Nadali, líder de uma das brigadas da região de Teerã, que afirmou haver grande interesse dos jovens em se alistar.
Acompanhando o anúncio, um pôster de recrutamento mostra o que parece ser um menor de idade ao lado de um homem adulto vestindo trajes militares. A Basij, oficialmente chamada de "organização para a mobilização dos oprimidos", é um braço da Guarda Revolucionária e atua como força paramilitar voluntária, frequentemente mobilizada para reprimir protestos e exercer funções de polícia moral.
Histórico preocupante e contexto regional
Organizações internacionais verificaram relatos e fotografias de crianças manejando armas pesadas em postos de controle. Um desses relatos, citado pela Anistia Internacional, descreve um menor "sem ar, pois mal conseguia segurar a arma". Essa não é uma prática nova no Irã: nos anos 1980, o país enviou dezenas de milhares de crianças à guerra contra o Iraque, com casos emblemáticos como o de Mohammad Hossein Fahmideh, morto aos 13 anos ao se jogar debaixo de um tanque com uma granada.
Mais recentemente, relatos indicam que Teerã enviou jovens afegãos para defender o regime sírio de Bashar al-Assad. O fenômeno, no entanto, não é exclusivo do Irã, sendo documentado também em países como Mianmar, Sudão do Sul e República Democrática do Congo.
Violação clara do direito internacional
Para Van Esveld, não há qualquer fator que atenue o recrutamento de menores. "A lei internacional é clara. Crianças não podem dar seu consentimento", afirma. "Aos 12 anos, entendem o risco de morrer ou de perder um membro? É claro que não." O Irã está sujeito a uma série de convenções e protocolos internacionais que proíbem expressamente o recrutamento e uso direto de menores em conflitos armados.
Os anúncios de recrutamento não se limitam a funções militares diretas, mas incluem também participação em patrulhas e preparação de comida – atividades que, segundo Van Esveld, ainda expõem as crianças aos frequentes ataques dos Estados Unidos e de Israel. "Deveriam estar na escola, não ali", ressalta.
Escolas também não são refúgios seguros
Ir à escola, no entanto, não garante proteção às crianças no Irã. Já no primeiro dia da guerra, em 28 de fevereiro, um bombardeio matou ao menos 175 pessoas em uma escola para garotas. As investigações apontam para a autoria dos EUA, embora a instituição estivesse próxima a uma base da Guarda Revolucionária. Van Esveld argumenta que imagens de satélite mostravam claramente que não se tratava de um alvo militar, havendo até um campinho de futebol no local. "Não basta dizerem agora que foi um erro. Deveriam ter feito tudo o que estava ao seu alcance para evitar", critica.
Cenário sombrio para crianças na região
A disputa com o Irã e seus aliados tem impactado crianças em outros países da região. Ataques israelenses em Gaza resultaram na morte de mais de 20 mil crianças e na destruição de 92% das escolas. No Líbano, os ataques forçaram mais de 1 milhão de pessoas a deixarem suas casas, incluindo 400 mil menores. Van Esveld descreve a situação das crianças na região como "sombria", destacando a urgência de medidas para proteger os mais vulneráveis em meio a conflitos que parecem não ter fim.



