Falha na proteção de arquivos de Epstein expõe vítimas e gera revolta
Fotos e vídeos sem tarjas pretas, contendo cenas de nudez e informações identificáveis, continuam disponíveis na internet há dias, apesar de alertas às autoridades dos Estados Unidos sobre falhas no processo de ocultação. Os materiais fazem parte dos arquivos do bilionário condenado por crimes sexuais Jeffrey Epstein, falecido em 2019, e sua divulgação tem causado danos irreparáveis às vítimas, segundo advogados envolvidos no caso.
Documentos com informações sensíveis permanecem acessíveis
Os arquivos analisados pela BBC Verify estão entre milhares de documentos que, de acordo com representantes legais, contêm dados que permitem a identificação de dezenas de vítimas de Epstein. Grupos de sobreviventes se manifestaram publicamente sobre o assunto no fim de semana, após o jornal americano New York Times informar que quase 40 imagens do tipo haviam sido publicadas na sexta-feira, 30 de agosto, como parte dos arquivos de Epstein.
Na terça-feira, 3 de setembro, um juiz de Nova York afirmou que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos concordou em corrigir rapidamente o problema, depois que as vítimas pediram a retirada do site até que nomes e imagens pudessem ser devidamente ocultados. O DoJ removeu milhares de documentos de sua plataforma online, alegando que os arquivos haviam sido publicados por erro técnico ou humano.
Imagens e vídeos ainda visíveis apesar das promessas
A BBC Verify, serviço de verificação de dados e imagens da BBC, constatou de forma independente que diversas imagens de pessoas identificáveis ainda estavam online na quarta-feira, 4 de setembro. Isso ocorreu mesmo após o governo dos Estados Unidos ter informado no dia anterior que estava lidando com o problema das ocultações incompletas.
Quatro das imagens identificadas pela BBC Verify mostravam jovens parcialmente vestidas, com rostos e corpos sem qualquer tipo de proteção visual. O material foi localizado em uma busca ampla entre milhões de arquivos divulgados como evidência das relações de Epstein com figuras públicas.
Partes de fotos de outras pessoas foram ocultadas em alguns documentos, mas permaneceram expostas em outros. Um dos arquivos reunia duas versões da mesma imagem: em uma, o rosto estava coberto por um quadrado preto; na outra, aparecia totalmente visível. Outro vídeo também identificava uma pessoa que aparecia levantando a camisa e exibindo um dos seios para a câmera.
Críticas ao Departamento de Justiça e impactos nas vítimas
Autoridades do Departamento de Justiça dos Estados Unidos tinham sido encarregadas de ocultar todas as fotos sexualmente explícitas ou quaisquer informações que pudessem identificar vítimas antes da divulgação do mais recente lote de arquivos de Epstein. A publicação estava prevista para o período do Natal passado, mas foi adiada devido ao trabalho adicional necessário para resguardar a identidade das vítimas.
Brad Edwards, advogado que representa vítimas de Epstein, afirmou em nota que o dano causado é irreparável. Ashley Rubright, sobrevivente dos abusos cometidos por Epstein, disse à BBC: Estou arrasada pelas garotas cujas informações foram divulgadas. Isso é uma violação enorme de um dos momentos mais horríveis da vida delas.
A BBC Verify constatou separadamente que a identidade de várias pessoas foi revelada em informações médicas e declarações legais publicadas nos arquivos. Um dos nomes foi exibido integralmente em dois vídeos de exames de ultrassom fetal. O horário, a data e o que parece ser o local dos exames, assim como a idade gestacional do feto, também estavam claramente visíveis.
Advogados denunciam milhares de erros na proteção
Diante dos episódios, advogados das vítimas de Epstein criticaram duramente o Departamento de Justiça dos Estados Unidos por não ter protegido adequadamente centenas de mulheres identificadas nos arquivos. Brad Edwards destacou no domingo, 1º de setembro: Estamos recebendo ligações constantes de vítimas porque seus nomes — apesar de elas nunca terem se exposto e serem completamente desconhecidas do público — acabaram de ser divulgados para consumo público. São literalmente milhares de erros.
O Departamento de Justiça informou que segue analisando novos pedidos e verificando se há outros documentos que exijam ocultação adicional. A BBC procurou a instituição para comentar o caso e forneceu os nomes dos arquivos sem tarjas, mas não recebeu respostas até o momento da publicação desta reportagem.



