Ex-príncipe Andrew: de herói das Malvinas a detido em caso Epstein
Ex-príncipe Andrew detido em caso Epstein

Ex-príncipe Andrew: de herói das Malvinas a detido em caso Epstein

Na juventude, ele era considerado um dos solteiros mais cobiçados do mundo, frequentemente comparado ao galã de cinema Robert Redford. Herói da Guerra das Malvinas em 1982, onde pilotou helicópteros em missões de resgate arriscadas, o ex-príncipe Andrew era visto como o "queridinho" da monarquia britânica. Atualmente, o terceiro filho da Rainha Elizabeth II vive seu momento mais sombrio: detido recentemente pela polícia britânica, ele enfrenta investigações que podem selar definitivamente sua ruína pública.

Detenção e investigação por má conduta

Andrew foi detido na última quinta-feira (19) sob suspeita de má conduta em cargo público. A polícia britânica investiga se ele enviou documentos confidenciais a Jeffrey Epstein durante o período em que atuava como representante comercial do Reino Unido. Embora tenha sido liberado 12 horas depois sem acusação formal, o príncipe continua sob investigação rigorosa. Já sem títulos honorários ou funções oficiais, ele responde agora como um cidadão comum perante as autoridades.

A amizade comprometedora com Jeffrey Epstein

O abalo catastrófico na imagem pública de Andrew começou com a exposição detalhada de sua amizade próxima com Jeffrey Epstein, o bilionário americano encontrado morto na prisão em 2019 enquanto aguardava julgamento por tráfico sexual. Documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos revelam a intimidade preocupante entre os dois através de diversos e-mails trocados ao longo dos anos.

Nas mensagens eletrônicas, Epstein referia-se ao príncipe britânico como "The Duke" (O Duque) ou "The Invisible Man" (O Homem Invisível), apelidos que sugeriam uma relação de cumplicidade. Em um dos textos mais comprometedores, enviado após Epstein já ter cumprido pena por crimes sexuais contra menores, o próprio príncipe escreveu ao amigo: "Parece que estamos nisso juntos. E vamos ter que superar. Vamos manter contato próximo e brincar mais em breve."

As acusações de Virginia Giuffre e o acordo milionário

A principal acusadora do príncipe é a americana Virginia Giuffre, que detalhou em depoimentos e entrevistas uma rede sistemática de abusos que começou quando ela tinha apenas 17 anos. Segundo seu relato, o primeiro encontro com Andrew aconteceu em um imóvel de Epstein em Londres, em uma cena que misturava a formalidade britânica com a exploração sexual.

"Estávamos tomando chá: ele falava da Fergie, a ex-mulher, e eu ficava ali como sempre mandavam: sentada, quieta, sendo educada", relembrou Virginia em entrevista. O convite para sair veio em seguida, mas não como um gesto de cortesia genuíno. "Ele me chamou para dançar e eu sabia que tinha que deixar ele satisfeito: isso era o que Jeffrey e Ghislaine esperavam de mim", descreveu a vítima.

Virginia descreveu o papel crucial de Ghislaine Maxwell, ex-namorada de Epstein, no processo de aliciamento. Durante um trajeto de carro, o tom foi direto e perturbador: "No carro, Ghislaine me disse que eu tinha que fazer com o Andrew o que eu fazia com o Jeffrey. Aquilo me deu enjoo". Segundo Virginia, ocorreram três encontros sexuais com o príncipe: na casa de Ghislaine em Londres, na mansão de Epstein em Nova York e na ilha particular dele no Caribe.

"Ele levantou, disse 'obrigado' e saiu. Eu fiquei ali, horrorizada, envergonhada, me sentindo suja", desabafou Virginia sobre um dos episódios. Andrew sempre negou veementemente as acusações, afirmando: "Posso afirmar, de forma absolutamente categórica, que isso nunca aconteceu". No entanto, em fevereiro de 2022, ele pagou cerca de 12 milhões de libras (quase R$ 84 milhões) em um acordo extrajudicial para encerrar o processo, sem nunca admitir formalmente o abuso. Virginia Giuffre faleceu em abril de 2025, aos 41 anos.

A conexão brasileira no caso Epstein

Os novos arquivos do caso Epstein revelam que os tentáculos da rede de exploração sexual alcançavam o território brasileiro. Documentos investigativos mostram que Epstein possuía CPF brasileiro registrado e havia adquirido um apartamento de alto padrão em São Paulo. Em um dos e-mails analisados, uma mulher identificada como Alexia enviou a Epstein a foto de uma jovem de Natal (RN), solicitando recursos financeiros para levá-la aos Estados Unidos.

O Ministério Público Federal (MPF) abriu uma investigação específica sobre essa conexão brasileira. Em entrevista ao Fantástico, a brasileira Marina Lacerda relatou ter sido abusada por Epstein desde os 14 anos de idade: "Perdi a sensibilidade do que era certo ou errado. Ele me pedia que levasse amigas", confessou a vítima.

Elite mundial sob os holofotes da investigação

Os documentos judiciais expõem como Jeffrey Epstein circulava com naturalidade alarmante entre as figuras mais poderosas e influentes do mundo. Registros citam nomes como o ex-presidente americano Bill Clinton, o escritor Deepak Chopra e o bilionário Bill Gates, que posteriormente reconheceu os encontros com Epstein como "um grande erro".

Donald Trump aparece em várias fotografias e documentos do caso; frequentou festas organizadas por Epstein e o bilionário utilizou seu jato particular nos anos 90. Trump afirma ter rompido relações com Epstein antes do início das investigações criminais. Elon Musk está mencionado em um e-mail de 2012, onde o dono da Tesla e do X pergunta a Epstein: "Em que dia ou noite vai ser a festa mais selvagem na sua ilha?". A ilha particular de Epstein é apontada como cenário central dos crimes sexuais.

Em 2025, o Rei Charles III retirou definitivamente de Andrew seus títulos honorários remanescentes e o tratamento formal de "Alteza Real". Isolado socialmente e sem funções oficiais na monarquia, o príncipe que um dia foi celebrado como herói nacional agora luta para explicar à justiça britânica a profundidade e natureza de sua lealdade a Jeffrey Epstein.