O governo dos Estados Unidos alterou significativamente uma das principais acusações contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro, suavizando a alegação de que ele seria o líder de um grande cartel de drogas. A mudança consta em uma versão atualizada do processo judicial, divulgada após a captura do líder chavista no último sábado, 3 de janeiro de 2026.
Mudança crucial na acusação
No documento original, datado de 2020, Maduro era descrito explicitamente como o chefe do suposto "Cartel de los Soles", uma menção que aparecia 32 vezes no texto. Essa narrativa foi mantida e amplificada durante toda a gestão do ex-presidente Donald Trump em 2025, culminando na designação do alegado grupo como organização terrorista pela Casa Branca.
Contudo, a nova versão da acusação, tornada pública pelo Departamento de Justiça dos EUA, apresenta uma linguagem distinta. O termo "Cartel de los Soles" é citado apenas duas vezes, e a organização não é mais caracterizada como um cartel hierárquico nos moldes dos grupos colombianos ou mexicanos.
Nova narrativa: de "cartel" a "sistema de clientelismo"
O texto revisado descreve o esquema como um "sistema de clientelismo" e uma "cultura de corrupção" financiada pelos recursos do narcotráfico. Segundo a acusação atualizada, os lucros do tráfico de drogas "fluem para funcionários civis, militares e de inteligência corruptos em níveis mais baixos, que operam dentro de um sistema de clientelismo gerenciado por aqueles que estão no topo".
O documento ainda associa o nome "Cartel de los Soles" ao emblema de sol usado nos uniformes de oficiais militares venezuelanos de alta patente. A acusação mantém que tanto Nicolás Maduro quanto seu antecessor, Hugo Chávez, participaram, perpetuaram e protegeram esse suposto esquema.
Contexto e questionamentos sobre a designação
Especialistas em crime organizado na América Latina há muito tempo argumentam que a expressão "Cartel de los Soles" é um termo coloquial, criado pela mídia venezuelana ainda na década de 1990, antes da ascensão de Chávez. Ele seria usado para se referir a redes de funcionários públicos corruptos envolvidos com o narcotráfico, e não a uma estrutura cartelizada formal.
O recuo na caracterização do suposto cartel lança dúvidas adicionais sobre a legitimidade da designação antiterrorista aplicada pelo governo Trump em 2025. É importante ressaltar que, apesar da mudança de terminologia, as acusações centrais contra Maduro por suposto envolvimento e conspiração para o tráfico internacional de drogas permanecem em vigor no processo judicial.
A alteração no documento oficial ocorre em um momento de alta tensão diplomática e representa um ajuste significativo na retórica jurídica utilizada pelos Estados Unidos no caso, que continua a ser um dos mais emblemáticos da política externa americana na região.