EUA avaliam taxar CV e PCC como terroristas após pressão dos filhos de Bolsonaro
O governo dos Estados Unidos está avaliando a possibilidade de designar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas internacionais. As informações foram divulgadas pelo jornal americano The New York Times nesta sexta-feira, 27 de março de 2026, e revelam que a questão vem sendo influenciada diretamente pela pressão política dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Lobby bolsonarista na Casa Branca
De acordo com o NYT, a administração do presidente Donald Trump ainda não chegou a uma decisão final, mas mantém as duas maiores organizações criminosas do Brasil no radar por representarem "ameaças significativas à segurança regional". A justificativa oficial aponta o envolvimento dessas facções com tráfico de drogas, violência urbana e crime transnacional.
No entanto, o que chama atenção é o forte lobby exercido por Flávio Bolsonaro, pré-candidato à presidência do Brasil, e seu irmão Eduardo Bolsonaro. Os herdeiros do capital político do ex-presidente têm trabalhado intensamente junto a autoridades do governo Trump para que a medida seja aprovada, visando transformá-la em um trunfo eleitoral para a campanha presidencial deste ano.
Flávio Bolsonaro chegou a viajar para Washington no ano passado, onde apresentou um relatório detalhado sobre as atividades do CV e do PCC a autoridades americanas. O documento incluía acusações de:
- Lavagem de dinheiro em grande escala
- Tráfico internacional de drogas
- Expansão transnacional das facções
- Vínculos com outros grupos criminosos internacionais
Preocupações do governo brasileiro
A possível classificação tem gerado séria preocupação no Palácio do Planalto. O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva enxerga a medida como mais uma tentativa da Casa Branca de interferir na política interna brasileira, seguindo um padrão estabelecido no ano passado.
Em 2025, a administração Trump instrumentalizou tarifas e sanções econômicas contra ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), incluindo a aplicação da Lei Magnitsky ao ministro Alexandre de Moraes. Embora a postura não tenha alcançado seus objetivos políticos, levantou questionamentos profundos sobre a política externa de Washington em relação ao Brasil.
Outro ponto que preocupa profundamente as autoridades brasileiras é a vulnerabilidade jurídica que a classificação como organizações terroristas poderia criar. Brasília teme que isso abra caminho para:
- Ações militares unilaterais do exército americano em território brasileiro
- Intervenções diretas sob o pretexto de combate ao terrorismo
- Expansão da jurisdição extraterritorial dos Estados Unidos
Contexto regional e precedentes perigosos
Os temores do governo Lula não são infundados. Washington tem utilizado esse tipo de designação de forma estratégica na América do Sul, criando precedentes preocupantes:
Os Estados Unidos já classificaram grupos criminosos venezuelanos como terroristas para justificar tentativas de deposição do ex-ditador Nicolás Maduro. Além disso, a marinha americana tem feito uso de designações similares para bombardear embarcações suspeitas ao longo da costa da América do Sul, alegando combate ao narcotráfico internacional.
O caso ganha contornos eleitorais ainda mais complexos porque inúmeras pesquisas de opinião têm demonstrado que a segurança pública é um dos temas mais importantes para os eleitores brasileiros em 2026. A classificação do CV e do PCC como organizações terroristas internacionais daria um impulso significativo à campanha de Flávio Bolsonaro, que tem como principal adversário justamente o atual presidente Lula.
Flávio Bolsonaro tem acusado repetidamente o governo atual de ser leniente com o crime organizado, e a possível medida americana seria apresentada como uma validação internacional dessa crítica. Aliados próximos do clã Bolsonaro argumentam há meses que as facções criminosas brasileiras representam uma ameaça direta à segurança dos Estados Unidos, buscando assim convencer a Casa Branca a aprovar a designação.
Enquanto a administração Trump avalia seus próximos passos, o governo brasileiro se prepara para possíveis consequências diplomáticas e de segurança. A situação expõe as complexas dinâmicas entre política interna, relações internacionais e segurança pública em um ano eleitoral decisivo para o Brasil.



