Arquivos de Epstein revelam menção a 'grande grupo brasileiro' em depoimento ao FBI
Um "grande grupo brasileiro" é mencionado em depoimentos ao FBI, a polícia federal americana, que integram milhares de documentos divulgados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre o caso do bilionário Jeffrey Epstein. O criminoso sexual, condenado nos Estados Unidos, foi encontrado morto em sua cela em 2019, mas as investigações sobre sua rede de abusos continuam revelando novos detalhes.
Documentos tarjados com referências ao Brasil
Os arquivos, tornados públicos após determinação do Congresso americano, reúnem materiais de investigações sobre abusos sexuais e tráfico de mulheres e meninas atribuídos a Epstein. A referência ao grupo brasileiro aparece em anotações manuscritas baseadas em uma entrevista do FBI realizada em 2 de maio de 2019.
O conteúdo trata de pessoas que podem ter sido levadas como possíveis vítimas para encontros sexuais, incluindo menores de idade. Grande parte do material está tarjada, o que impede a identificação completa das pessoas envolvidas ou a compreensão integral do contexto.
O arquivo leva o título de "Entrevista de [informação tarjada]" e na descrição é possível ler "notas originais da entrevista de [informação tarjada]. Fotos fornecidas por [informação tarjada]." Em seguida, aparece a menção: "Amigos de amigos [informação tarjada]. Grande grupo brasileiro".
Critérios de Epstein e menções específicas
Segundo o documento do depoimento, uma pessoa citada como "JE" (possivelmente Jeffrey Epstein) teria imposto critérios sobre as meninas que lhe eram apresentadas. Epstein afirmou que não queria "spanish or dark girls" (garotas espanholas ou escuras), referindo-se aparentemente a latinas ou hispânicas.
Em um trecho, as anotações descrevem características físicas de uma pessoa com "pele mais escura" e "aparência amazônica", que teria sido "trazida no final, em momento de desespero", quando os envolvidos estariam "ficando sem garotas".
Outra parte do relato manuscrito menciona alguém que "teria acabado de vir do Brasil" e "era modelo". O documento diz que JE "realmente estava apaixonado por ela" e que "talvez tenha falado em fazer um esboço ou pintura". Uma anotação lateral menciona "vivendo com a mãe aos 13, saiu de casa aos 14".
Preferência por menores de idade
O relato também detalha a preferência de Epstein por meninas menores de idade. "Em certo momento, [tarja] o viu pedindo documento de identidade para as meninas. Ele queria se certificar de que tinham menos de 18 anos porque não estava acreditando nelas, já que [tarja] tinha bagunçado tudo ao levar garotas mais velhas", diz o documento.
Os registros fazem parte de um conjunto maior de milhares de arquivos que incluem fotos, vídeos e documentos de investigação reunidos por autoridades americanas ao longo de anos. O mesmo documento traz ainda fotos cujas legendas falam sobre uma "festa brasileira" e um "desfile brasileiro", mas tarjas impedem a identificação do local ou das pessoas envolvidas.
Conexão com agência de modelos brasileira
Além do relato envolvendo brasileiros agora divulgado, reportagens publicadas nos últimos anos afirmam que Jean-Luc Brunel, ex-agente de modelos francês e parceiro de Epstein, esteve no Brasil em 2019. Brunel, que foi encontrado morto na prisão em Paris em 2022, era acusado de tráfico de mulheres e recrutava garotas para Epstein.
Uma reportagem do jornal britânico The Guardian, publicada em agosto de 2019, relata que Brunel "esteve no Brasil em 2019 para encontrar novas modelos para levar aos Estados Unidos". Quando um repórter visitou um apartamento em Miami de propriedade de Brunel, a porta foi atendida por uma jovem que disse ser uma modelo brasileira que estava lá para trabalhar para a MC2, sua agência.
Outra reportagem da Agência Pública mostrou uma foto de Brunel divulgada em 2019 por uma agência de modelos, a Mega Model Brasília, com legenda afirmando que ele "esteve aqui [em Brasília] hoje para um casting para levar os nossos modelos para Nova Iorque".
Posicionamento da agência brasileira
Nivaldo Leite, diretor da Mega Model, afirma à BBC News Brasil que Brunel "apenas foi na agência fazer uma visita e conhecer nossa estrutura", mas que nenhum modelo da agência viajou ou fez contato com ele depois. "Certeza absoluta que nenhuma! Quem faz internacional da agência sou eu pessoalmente", diz.
Em nota enviada à BBC, a Mega Model disse que "a agência jamais manteve qualquer relação comercial, parceria ou vínculo com Jean-Luc Brunel ou Jeffrey Epstein". A empresa destacou que consta em documentos liberados pelo FBI como uma empresa que se negou a assinar contratos com a MC2.
"Ao contrário de ter sido 'citada no esquema', a Mega Model foi citada por Brunel como uma agência que o boicotou e protegeu seus agenciados de qualquer ambiente de risco assim que os primeiros indícios de má conduta vieram à tona", informou a agência.
Investigações em andamento
A reportagem perguntou ao governo brasileiro se há ou houve qualquer iniciativa no sentido de identificar brasileiros no caso Epstein. O Ministério da Justiça e Segurança Pública e o Itamaraty informaram que a demanda deveria ser feita à Polícia Federal, que por sua vez respondeu que "não se manifesta sobre investigação em curso".
Os documentos divulgados mostram que o Brasil aparece como um dos destinos de viagem de Epstein em montagem nos arquivos do Departamento de Justiça americano. As revelações continuam a pressionar autoridades sobre a extensão completa da rede de abusos associada ao bilionário.



