O Banco Central do Brasil protocolou junto ao Ministério Público Federal duas "notícias de fato" relacionadas ao caso Banco Master, em um dos maiores escândalos financeiros e institucionais da história recente do país. Os documentos detalham uma operação complexa de desvio de recursos e uma pirâmide financeira que resultou na liquidação da instituição.
O Mapeamento do Esquema Bilionário
As investigações do BC revelaram um plano meticuloso executado entre 2023 e 2025. A primeira notícia de fato, protocolada em meados de 2025, aborda crimes ocorridos entre o final de 2024 e o início de 2025. A segunda, de novembro de 2025, foca em ilícitos cometidos entre 2023 e 2024. Novas notificações ao MPF estão em preparação.
O esquema foi dividido em fases distintas pelo Banco Central:
1. A Sangria de R$ 11,5 Bilhões (2023-2024)
O mecanismo principal envolvia uma triangulação para retirar recursos do banco. O Master emprestava, por exemplo, R$ 500 milhões para uma empresa. Esta, por sua vez, aplicava o valor em um fundo da gestora REAG, pagando cerca de R$ 10 milhões em IOF.
Contabilmente, a empresa parecia saudável, com um passivo (dívida) e um ativo (investimento) de valor equivalente. No entanto, uma vez dentro dos fundos da REAG, o dinheiro saía da alçada de fiscalização do BC e passava para a esfera da CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
Sem visibilidade sobre o conteúdo dos fundos, o BC descobriu que o dinheiro era usado para comprar ativos superfaturados e sem valor real. Um exemplo citado é a aquisição, por R$ 500 milhões, de algo que valia apenas R$ 10 milhões, como "cártulas do BESC".
O BC identificou seis fundos da REAG – Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna – com patrimônio total de R$ 102,4 bilhões, suspeitos de lavagem de aproximadamente R$ 11,5 bilhões. O lucro da operação ficava com um "laranja" e circulava por uma rede de fundos até chegar aos beneficiários finais, sempre parando nos mesmos veículos.
2. A Pirâmide Financeira (Esquema Ponzi)
Para manter o fluxo de caixa enquanto o dinheiro era desviado, o Master adotou as práticas clássicas de um esquema Ponzi. O banco oferecia longas carências de 3 a 5 anos em seus empréstimos, postergando o reconhecimento da inadimplência.
Paralelamente, captava novos recursos via CDBs (Certificados de Depósito Bancário) com rendimentos altíssimos para pagar os investidores antigos. Chegou a oferecer CDBs pagando 140% do CDI, uma taxa que tornaria impossível encontrar tomadores de empréstimo dispostos a pagar juros ainda mais altos para cobrir o custo.
Com a crise de credibilidade em 2024, a captação secou e o banco perdeu a capacidade de honrar seus vencimentos.
3. A Fraude da 'Tirreno' e a Tentativa com o BRB
Desesperado por liquidez no final de 2024 e início de 2025, o Master arquitetou uma "transfusão de sangue". Utilizou a empresa Tirreno, gerida por um ex-funcionário, para simular a venda de uma carteira de crédito de R$ 6 bilhões ao banco.
Na prática, era uma operação fantasiosa. O Master não pagava a Tirreno, apenas criava um registro contábil. Em seguida, revendia a mesma carteira inexistente ao BRB por R$ 12 bilhões, manipulando a taxa de juros de 4% para 2% ao mês para justificar a duplicação do valor nominal.
O plano culminava com uma proposta para o BRB comprar o Banco Master. O objetivo era fundir os balanços, esconder a fraude e utilizar a capacidade de captação do banco público (BRB) para perpetuar o esquema, transferindo o prejuízo futuro para os contribuintes. Após o anúncio da possível aquisição, o Master chegou a reduzir os juros dos CDBs para 110-114% do CDI.
Intervenção, Colapso e a Crise Institucional
Percebendo a natureza de pirâmide do esquema, o Banco Central tomou uma medida crucial: limitou a captação do Master a 100% do CDI. Isso paralisou o crescimento do banco, que em 2025 captou apenas R$ 90 milhões ante um passivo bilionário.
Desde abril de 2025, o Fundo Garantidor de Crédito (FGC) assumiu o pagamento dos CDBs vencidos através de uma linha emergencial. O controlador vendeu ativos pessoais, como os Hotéis Fasano, aviões e lanchas, numa tentativa frustrada de recapitalização. A tentativa final de usar recursos de fundos administrados por laranjas foi barrada pelo BC.
O banco foi liquidado quando não possuía caixa para pagar nem 15% dos vencimentos semanais.
O caso transcende o financeiro e se tornou uma crise institucional sem precedentes. Internamente no BC, usou-se a expressão "too big to fail da corrupção". Embora o Master representasse apenas 0,5% dos ativos do sistema financeiro, constituía um risco sistêmico para as instituições, dada sua suposta rede de influência no Senado, Câmara, TCU e agências de risco. Essa rede de influência é apontada como uma das razões para a demora na ação mais enérgica.
A liquidação desencadeou um raro confronto institucional, com STF, TCU e Congresso questionando simultaneamente decisões técnicas do Banco Central. Documentos mostram negociações prolongadas entre BC, Master e BRB, com o BC impondo condições cada vez mais restritivas antes de vetar a operação em setembro de 2025.
O caso levanta questões profundas: como agências de risco como a Fitch elevaram a nota do banco? Como uma Big Four (KPMG ou PwC) auditou os balanços sem detectar as fraudes? A defesa do Master, por sua vez, deve argumentar que foi a interrupção da venda de ativos dos fundos que levou ao colapso.
O Caso Master entra para a história como um capítulo marcante de degradação institucional, e seus desdobramentos judiciais e políticos ainda estão por vir.