Deputado solicita investigação de trend que incentiva violência contra mulheres após rejeição
PF investiga trend que simula violência após rejeição feminina

Polícia Federal inicia ofensiva contra trend que promove violência de gênero

A Diretoria de Crimes Cibernéticos da Polícia Federal (PF) iniciou uma operação para combater uma tendência preocupante nas redes sociais. Nesta segunda-feira (9), a corporação confirmou a derrubada de perfis e a abertura de inquérito para investigar a trend conhecida como "caso ela diga não". A ação tem como objetivo desarticular a propagação de conteúdos que incitam explicitamente a violência contra mulheres, representando uma grave ameaça à segurança pública e aos direitos femininos.

Conteúdos simulam reações violentas à rejeição

Os vídeos que compõem essa tendência digital mostram jovens realizando encenações alarmantes. Nas simulações, eles apresentam reações extremamente violentas diante de negativas em pedidos de namoro ou casamento. As cenas incluem socos em objetos, movimentos de luta e, de forma especialmente preocupante, golpes simulados com facas. Essas representações não são meras brincadeiras, mas simulações detalhadas de agressões físicas que normalizam e banalizam a violência de gênero.

A gravidade desses conteúdos ganha dimensão trágica quando confrontada com casos reais. No Rio de Janeiro, uma jovem que recusou um homem foi brutalmente esfaqueada mais de quinze vezes, sobrevivendo apenas após quase um mês internada em estado grave. Este caso concreto demonstra como a cultura da violência retratada nessas trends pode se materializar em agressões físicas reais com consequências devastadoras.

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Comissão da Câmara vota requerimento para investigação

Na terça-feira (10), a Comissão de Segurança Pública da Câmara dos Deputados deve votar um requerimento dirigido à Procuradoria-Geral da República (PGR). O pedido, de autoria do deputado Pedro Campos (PSB-PE), solicita que a PGR tome todas as medidas necessárias para responsabilizar criminalmente os envolvidos na publicação desses conteúdos por apologia à violência.

Em entrevista ao GloboNews Mais, o parlamentar foi enfático ao classificar a conduta dos influenciadores como "apologia ao crime". Campos apontou ainda o que chamou de "crise da masculinidade" como combustível para essa violência digital. "O que temos visto é uma reação completamente absurda à ocupação de espaços de poder pelas mulheres. Os homens estão perdendo aquele papel de únicos provedores e comandantes, e a resposta é atualizar o machismo e o patriarcado para o século 21 através da internet", afirmou o deputado.

Trend "treinando caso ela diga não" viraliza no TikTok

A trend que circula principalmente no TikTok utiliza a frase "treinando caso ela diga não" e ganhou força significativa nas redes sociais nas últimas semanas. Os vídeos seguem um padrão preocupante: primeiro mostram situações de abordagem romântica, geralmente um pedido de namoro ou casamento, seguidos pela legenda "treinando caso ela diga não" ou variações semelhantes. Imediatamente após, os criadores encenam reações agressivas diante da possibilidade de rejeição.

Uma análise realizada pelo g1 examinou vinte vídeos divulgados na plataforma, publicados entre 2023 e 2025. Esses posts pertencem a perfis com seguidores que variam de 883 até 177 mil, acumulando mais de 175 mil interações na plataforma. A viralização ocorre em um contexto nacional alarmante: o Brasil registrou recorde de feminicídios em 2025, com 1.470 mulheres mortas por esse tipo de crime, segundo dados oficiais do Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Foco nas plataformas de tecnologia

Além da punição individual aos influenciadores responsáveis pelos conteúdos, o deputado Pedro Campos defende que a investigação da PF e o avanço da PGR devem focar também na estrutura das empresas de tecnologia. "É fundamental entender o que essas plataformas estão fazendo para coibir que esse tipo de conteúdo circule. Não podemos permitir que a disseminação de ideias que geram comportamentos violentos seja lucrativa ou facilitada pela falta de moderação", argumentou o parlamentar.

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Procurado para comentar o caso, o TikTok enviou uma nota informando que os conteúdos em questão violam as Diretrizes da Comunidade da plataforma e foram removidos assim que identificados. A empresa afirmou que mantém políticas rigorosas contra conteúdos que promovam violência ou discurso de ódio, embora a rápida disseminação desses vídeos tenha levantado questões sobre a eficácia dos mecanismos de moderação.

Fenômeno internacional

Vale destacar que essa tendência preocupante não se limita ao território brasileiro. No exterior, vídeos com pessoas simulando golpes em resposta a uma rejeição feminina também viralizaram, indicando que se trata de um fenômeno global que requer atenção e ação coordenada internacional. A propagação transfronteiriça desses conteúdos representa um desafio adicional para as autoridades e plataformas digitais, exigindo cooperação além das fronteiras nacionais para um combate efetivo.

A ofensiva da Polícia Federal representa um passo importante no enfrentamento dessa nova forma de violência digital, mas especialistas alertam que será necessário um esforço contínuo e multissetorial para combater efetivamente a cultura de ódio e agressão contra mulheres que encontra terreno fértil nas redes sociais.