Favela histórica de São Paulo enfrenta pressão imobiliária e mudança na política habitacional
Localizada entre alguns dos empreendimentos mais valorizados da capital paulista, a favela do Jardim Panorama, na Zona Oeste, tornou-se símbolo de uma disputa silenciosa por território na cidade. De um lado, moradores que vivem há mais de seis décadas no local. De outro, o avanço do mercado imobiliário de alto padrão em uma das regiões mais caras de São Paulo.
Comunidade histórica em área valorizada
A comunidade surgiu nos anos 1950, antes mesmo da consolidação urbana do Morumbi e do eixo da Marginal Pinheiros, e hoje reúne cerca de 1.100 famílias em seus 33.105 metros quadrados, equivalente a aproximadamente três campos de futebol. Ao longo das décadas, viu seu entorno se transformar com a chegada de centros empresariais, condomínios de luxo e projetos urbanísticos voltados à população de alta renda.
Os moradores agora temem não resistir à nova onda de valorização da área, situada entre o Shopping Cidade Jardim e o Colégio Avenues, escola privada com mensalidades superiores a R$ 15 mil. "A gente já tem plena noção que, para eles, tanto para a prefeitura quanto para o shopping, esse terreno é valioso. Para eles é dinheiro. Para nós, não. Para nós é a nossa vida aqui", afirma a moradora Simone Cristina Sales, de 38 anos.
Mudança na política habitacional
A gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) desistiu, em 2024, de um projeto que previa a construção de moradias no entorno da comunidade e passou a propor a compra de imóveis com valores que não são compatíveis com a região. Em 2023, a Prefeitura de São Paulo havia apresentado um projeto que previa a urbanização da favela com o mínimo de remoções e a construção de moradias no entorno, permitindo que os moradores permanecessem na região.
O projeto incluía a desapropriação de um terreno próximo, onde seriam construídas unidades de habitação de interesse social. A proposta previa que as famílias só deixariam suas casas quando os novos imóveis estivessem prontos — modelo conhecido como "chave a chave". Porém, no início de 2024, a gestão municipal desistiu da desapropriação do terreno e deixou de apresentar um plano para a área.
Programa Pode Entrar e riscos de deslocamento
Desde então, a principal alternativa passou a ser a compra de unidades habitacionais por meio do programa Pode Entrar, principal programa habitacional da Prefeitura de São Paulo. Nesse modelo, a prefeitura adquire imóveis do mercado e os destina a famílias cadastradas — sem garantia de que as moradias fiquem na mesma região em que elas já estão estabelecidas.
Especialistas afirmam que isso significa que famílias que hoje vivem em áreas valorizadas podem ser transferidas para bairros mais distantes, onde o custo dos imóveis é menor e há mais oferta de unidades dentro dos limites de preço definidos pelo programa. Uma pesquisa da USP analisou os valores pagos pela prefeitura por imóveis populares entre 2002 e 2026. Apenas dois pagamentos ultrapassaram o valor mínimo (R$ 218 mil) de um imóvel do Pode Entrar.
Os moradores do Jardim Panorama teriam que encontrar algum imóvel entre os bairros de Pinheiros, Jardim Europa, Jardim Paulistano, Itaim Bibi e Vila Olímpia por cerca de R$ 218 mil, o que é praticamente impossível considerando os valores do mercado imobiliário nessas regiões.
Conflitos fundiários e pressão imobiliária
A tensão no Jardim Panorama não é recente. Desde pelo menos os anos 2000, há registros de conflitos fundiários, ações judiciais e tentativas de intervenção pública na área. A favela está dentro do perímetro da Operação Urbana Faria Lima, mecanismo que permite flexibilizar regras de construção em troca de pagamento ao município.
Moradores relatam episódios de pressão relacionados à valorização imobiliária da região, onde estão localizados empreendimentos de alto padrão. Segundo relatos, já houve abordagens de representantes da JHSF (empresa com empreendimentos de alto padrão no entorno) com ofertas financeiras para que famílias deixassem suas casas. Em 2007, uma reportagem revelou que a construtora pagou R$ 40 mil para que moradores deixassem o lugar.
Impactos sociais e desigualdade territorial
Especialistas avaliam que o modelo atual pode aprofundar a desigualdade territorial ao deslocar moradores para regiões periféricas, rompendo vínculos com trabalho, escola e redes de apoio. "Quando você substitui a urbanização no local pela compra de unidades no mercado, especialmente em áreas de alto valor, a tendência é deslocar essas famílias para longe", afirma a arquiteta e urbanista Cristina Wehba.
Para o urbanista André Dal'Bó, professor de Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo (USP), o caso do Jardim Panorama expõe um padrão mais amplo de transformação urbana. "O mercado imobiliário de alta renda tende a expulsar populações mais pobres dessas áreas. Se não houver regulação forte do Estado, isso acontece", afirma.
Situação atual das famílias
Simone Cristina é uma das moradoras que trabalham em um dos 13 empreendimentos da JHSF no entorno da comunidade. Há dois anos, ela precisou deixar a casa em que vivia, na chamada Área dos Eucaliptos, considerada de risco pela prefeitura. Hoje, paga R$ 800 de aluguel e recebe auxílio-aluguel de R$ 600 da prefeitura.
Segundo a gestão municipal, cerca de 297 famílias foram removidas da área de maneira emergencial, com histórico de árvores caindo sobre casas durante chuvas, segundo estudos da Secretaria Municipal de Habitação (Sehab). A Prefeitura de São Paulo aprovou em junho de 2024 auxílio-aluguel de R$ 600 mensais por família até o reassentamento definitivo.
"Se o meu trabalho é aqui, eu tenho essa flexibilidade de levar minha filha até a creche, ir trabalhar, chegar do serviço e pegar minha filha. Se me tirarem daqui, eu vou para onde?", indaga Simone. "Essa urbanização que falam, a gente já entendeu: é para tirar a gente daqui, para eles poderem continuar com os empreendimentos."
Posicionamento da prefeitura
Em nota, a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento informou que a compra de unidades habitacionais por meio do programa Pode Entrar é "uma alternativa mais ágil e eficaz para o atendimento às famílias" e que, por isso, abriu um chamamento público no âmbito do programa para a aquisição de até 6 mil unidades de habitação de interesse social no perímetro da Operação Urbana Consorciada Faria Lima.
A pasta afirmou ainda que "a iniciativa tem como objetivo atender famílias do Jardim Panorama, e a entrega de propostas por parte da iniciativa privada está prevista para o dia 24 de abril". A secretaria também destacou que as áreas em discussão são objeto de ação judicial de usucapião coletivo, envolvendo questões fundiárias complexas e sem prazo de definição.
Enquanto isso, os moradores seguem dependendo do auxílio-aluguel de R$ 600 e temem ser obrigados a aceitar moradias em regiões distantes, rompendo laços comunitários e acesso a trabalho e serviços estabelecidos há décadas na região.



