Anne Hidalgo deixa prefeitura de Paris após 12 anos de revolução urbana e sustentável
Hidalgo deixa Paris após 12 anos de transformação urbana radical

Fim de uma era: Hidalgo encerra gestão após transformar a mobilidade e o ambiente de Paris

Neste domingo (29), a prefeita de Paris, Anne Hidalgo, deixa oficialmente o cargo após 12 anos à frente da capital francesa. Seu mandato ficará marcado na história por promover uma das mais profundas revoluções urbanas em uma grande metrópole nas últimas décadas, com foco na sustentabilidade e na qualidade de vida.

Uma cidade redesenhada para pessoas, não para carros

Sob a liderança de Hidalgo, centenas de ruas parisienses foram fechadas ao tráfego de automóveis, dando espaço prioritário a pedestres, ciclovias e áreas verdes. Veículos foram banidos das vias ao redor do icônico Rio Sena, transformando suas margens em espaços exclusivos para caminhadas e passeios de bicicleta.

Além disso, mais de 130 mil árvores foram plantadas em toda a cidade, muitas delas ocupando antigas vagas de estacionamento removidas. O trânsito de bicicletas foi fortemente estimulado, com a abertura agressiva de ciclovias, especialmente durante o período da pandemia.

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Combate à poluição e mudanças climáticas

Uma das prioridades centrais da gestão Hidalgo foi preparar Paris para os desafios das mudanças climáticas. Para isso, desde 2015, a circulação de automóveis na cidade foi reduzida à metade. Mais de 200 ruas tiveram o tráfego completamente proibido, com planos de expandir para 500 vias no futuro.

Outras medidas drásticas incluíram:

  • Redução da velocidade máxima para 30 km/h na maior parte da cidade.
  • Aumento significativo das taxas de estacionamento para veículos pesados, como SUVs, que podem pagar até 18 euros por hora no centro.
  • Incentivo ao transporte público e modais ativos, como caminhada e ciclismo.

Os resultados são impressionantes: o tráfego de carros caiu mais de 60% desde 2002, enquanto o uso de bicicletas mais que triplicou. A qualidade do ar melhorou sensivelmente, com reduções de 35% nas emissões de dióxido de carbono e 40% na poluição por dióxido de nitrogênio entre 2012 e 2022.

A "cidade de 15 minutos" como legado

Em 2015, Hidalgo trouxe para a prefeitura o urbanista Carlos Moreno, criador do conceito da "cidade de 15 minutos". A ideia é que todos os habitantes tenham acesso à maioria de suas necessidades — como trabalho, mercado, áreas verdes, escolas e unidades de saúde — a uma distância máxima de 15 minutos a pé ou de bicicleta.

Esse conceito, inspirado em pensadores como Jane Jacobs e Jan Gehl, visa criar uma cidade mais humana, comunitária e menos dependente do automóvel. Em Paris, foi facilitado pela já existente difusão de empreendimentos de uso misto, como prédios residenciais com comércio no térreo.

Críticas e desafios enfrentados

Apesar dos avanços, a gestão de Hidalgo também acumulou críticas. Grupos de defesa dos motoristas, como o 40 Milhões de Motoristas, acusaram-na de criar uma divisão entre os moradores ricos do centro e os dos subúrbios, que dependem mais de carros.

Nas redes sociais, a hashtag #saccageParis viralizou, destacando problemas urbanos como obras intermináveis e calçadas sujas. Além disso, a dívida municipal aumentou 42% desde 2020, chegando a cerca de 10 bilhões de euros — algo que seu sucessor, Emmanuel Grégoire, atribuiu a uma "ambição excessiva" e a um cronograma muito acelerado.

Transição e futuro

Hidalgo passa a faixa para Emmanuel Grégoire, seu aliado do Partido Socialista (PS), vencedor das eleições realizadas no último dia 22. A plataforma urbana de Hidalgo, que vai na direção oposta da maioria das grandes cidades brasileiras, mostrou que é possível transformar uma metrópole global em um espaço mais verde, silencioso e justo.

Com informações de Poliana Casemiro e da agência Reuters, o legado de Anne Hidalgo em Paris serve como um exemplo inspirador — e polêmico — de como repensar as cidades para as pessoas e para o planeta.

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