Estudo da USP encontra 12 antibióticos no Rio Piracicaba e planta que reduz danos aos peixes
USP: 12 antibióticos no Rio Piracicaba e planta que limpa água

Estudo da USP revela contaminação por antibióticos no Rio Piracicaba e solução natural com planta aquática

Uma pesquisa realizada pelo Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (Cena-USP) detectou a presença de 12 tipos de antibióticos em concentrações elevadas nas águas do Rio Piracicaba, em São Paulo. O estudo, publicado na revista Environmental Sciences Europe, também apontou que a planta aquática Salvinia auriculata possui potencial significativo para auxiliar na remoção parcial dessas substâncias, reduzindo os danos genéticos causados aos peixes.

Antibióticos identificados e riscos à saúde

Os pesquisadores identificaram os seguintes antibióticos: tetraciclina, oxitetraciclina, clortetraciclina, enrofloxacina, ciprofloxacina, sarafloxacina, norfloxacina, cloranfenicol, florfenicol, sulfadimetoxina, sulfatiazol e sulfametazina. Destes, o cloranfenicol se destaca por ser proibido no Brasil para uso em animais de produção devido à sua alta toxicidade, podendo causar danos ao DNA dos peixes e representar riscos à saúde humana através do consumo de peixes contaminados.

O professor Valdemar Tornisielo, um dos autores do estudo, alertou que a presença de antibióticos em rios como o Piracicaba pode desencadear o surgimento de superbactérias resistentes, comprometendo o tratamento de doenças simples em humanos. As coletas foram realizadas na barragem de Santa Maria da Serra, região impactada por esgoto urbano, efluentes domésticos, aquicultura, criação de suínos e escoamento agrícola.

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Metodologia inovadora com energia nuclear

O estudo utilizou moléculas radiomarcadas com carbono-14, uma técnica financiada pela Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), para rastrear o destino dos antibióticos na água, nas plantas e nos peixes. Isso permitiu a criação de autorradiografias, imagens que mostram visualmente a concentração das substâncias, como nas raízes das plantas ou em tecidos dos peixes, facilitando a quantificação precisa.

Essa abordagem inovadora permitiu aos pesquisadores monitorar como os peixes, especialmente o lambari, absorvem e excretam os antibióticos através de ração contaminada, simulando condições reais de bioacumulação. Os resultados indicaram que o cloranfenicol tem um alto fator de bioconcentração e eliminação lenta, com meia-vida superior a 90 dias, enquanto a enrofloxacina é eliminada mais rapidamente, em cerca de 21 dias.

Papel da Salvinia auriculata na limpeza da água

A planta aquática Salvinia auriculata, comum na América do Sul e muitas vezes considerada invasora, demonstrou eficácia variada na remoção de antibióticos. Para a enrofloxacina, a planta removeu mais de 95% do composto em poucos dias, reduzindo sua meia-vida para dois a três dias. Já para o cloranfenicol, a remoção foi de 30% a 45%, com meia-vida entre 16 e 20 dias, devido às suas propriedades físico-químicas que dificultam a absorção.

Os pesquisadores observaram que os antibióticos se concentram principalmente nas raízes da planta, que estão em contato direto com a água, atuando como um mecanismo natural de filtragem. No entanto, o manejo da biomassa é crucial, pois plantas contaminadas não removidas podem reintroduzir poluentes no ambiente, e seu crescimento excessivo pode bloquear a luz solar, prejudicando o ecossistema aquático.

Impactos nos peixes e viabilidade da solução

O estudo focou no lambari, espécie importante para a pesca local, e descobriu que o cloranfenicol causa danos significativos ao DNA, incluindo micronúcleos e anomalias nucleares. A presença da Salvinia auriculata reduziu drasticamente esses danos genéticos nos peixes expostos, trazendo-os a níveis próximos aos de um ambiente limpo, embora essa proteção não tenha sido observada para a enrofloxacina, cujos subprodutos podem permanecer tóxicos.

Os pesquisadores concluíram que, apesar dos desafios, como a necessidade de manejo adequado e o risco de a planta alterar a forma química dos poluentes, os resultados são promissores para o desenvolvimento de sistemas de tratamento de baixo custo baseados na natureza. Essas soluções podem ser especialmente úteis em áreas onde tecnologias avançadas são financeiramente inviáveis, oferecendo uma abordagem sustentável para mitigar a contaminação aquática.

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Além dos antibióticos, o estudo também detectou a presença de diversos pesticidas na água do Rio Piracicaba, reforçando a necessidade de ações integradas para proteger a saúde humana e ambiental. A pesquisa representa um avanço no entendimento dos ecossistemas aquáticos e na busca por remediações eficazes contra poluentes emergentes.